Crianças sem empatia

Crianças sem empatia

Desde que me tornei mãe há uma série de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crianças e maus tratos deixa-me de rastos.

Os maus tratos de que hoje falo não são de pai para filho, mas sim de filho para pai. Este tipo de comportamento existe e parece longe de estar erradicado.

Há, como em todo o tipo de relações, vários géneros de maus tratos, vários níveis, nenhum porém que não seja grave a meu ver.

Ontem estava no metro e entraram comigo uma senhora com os seus 40 anos e a filha adolescente, talvez de uns treze. Tinham muito bom aspecto (digo isto já porque há um preconceito, que muitas vezes também cruza a minha sensibilidade, em relação ao tipo de pessoas que está envolvida em algumas situações). Por defeito profissional estou atenta ao comportamento de quem me rodeia, gosto de “absorver” a forma como as pessoas lidam umas com as outras, o modo como o amor ou a rejeição se manifestam nas várias idades, entre pessoas diferentes, etc. Levantando os olhos do meu livro reparei que tanto a mãe como a filha estavam ambas focadas nos telemóveis. A mãe estava nas redes sociais, a filha a jogar. A primeira “chapada” que recebi aconteceu quando a filha, possivelmente ao falhar o objectivo do jogo, lançou um impropério cabeludo, daqueles palavrões que nunca a minha mãe disse ou me ouviria dizer nem que passasse uma eternidade. O meu olhar voltou-se para a mãe, que agiu como se nada se tivesse passado. Pensei que não tivesse ouvido. Fiquei a matutar e quando ambas se levantaram para sair na sua estação algo me escapou, algo que a rapariga disse à mãe e a que esta não respondeu. Recebeu como sentença:

“Para além de atrasada és surda”.

Estremeci. Fiquei paralisada no meu lugar, incrédula, à espera da reacção da mãe e não minto quando digo que esperava uma resposta do mesmo calibre. Mas não foi isso que aconteceu. A mãe demorou pelo menos trinta segundos a responder, sendo que a filha voltou a repetir a mesma frase, já numa impaciência tal que parecia que queria que toda a gente à volta dela concordasse. Por fim a mãe lá disse, num tom suave e discreto, sem qualquer sinal de estar a controlar os nervos:

-“ Vê lá se controlas a má educação, está bem? Ainda são cinco da tarde”.

E saíram.

Caramba, aquela miúda tratou a mãe abaixo de cão e ainda lhe passaram a mão pelo pêlo. Duas coisas me ocuparam de imediato o pensamento: quando é que a vida daquelas duas pessoas tinha chegado ao ponto em que era ok a filha chamar nomes à mãe? E teria havido um comportamento semelhante em que a filha se espelhasse? Se tivesse de apostar diria que sim, que a postura da mãe é passiva, que eventualmente nem nunca lhe chamou nomes ou a maltratou mas aposto que houve outra alguém (o pai, quem sabe) que terá passado a vida toda daquela miúda a rebaixar a mãe e a dirigir-lhe ofensas sempre que não correspondia ao que esperavam dela. Ou talvez nem tivesse sido assim, quem sabe? Às vezes as relações de abuso começam por a vítima mostrar uma fragilidade e o abusador aproveitar para a controlar. Mas aqui falamos de uma miúda e mexeu comigo.

São estes os filhos que quando os pais, já idosos, vão parar aos hospitais os abandonam à sua mercê? São estes os filhos que roubam os pais? São estes os filhos que maltratam fisicamente os pais, como tantas vezes vemos nas notícias, seja por violência física, seja por os deixarem à fome?

Como é que uma pessoa que não respeita a mãe (ou o pai, ou ambos) pode respeitar seja quem for na sua vida adulta? E falo de relações em que os pais merecem respeito, que também existem pais que de pais só detém o título.

Custa-me muito pensar nas memórias que estão a ser criadas, na falta de empatia que existe, porque aquela miúda não hesitou em magoar a mãe nem se preocupou sequer com o facto de estarem diante de outras pessoas. Quem faz isto de que mais será capaz?

Há todo um tipo de vivências de que estou muito distante, felizmente. Cresci num lar em que o respeito é pedra basilar, em que há amor, compreensão e sempre houve limites. É esse o mundo que estou a tentar recriar para a minha filha mas sei que irá deparar-se com pessoas com um background completamente diferente.

Pergunto-me se miúdos que têm uma relação abusiva com os pais são passivos de serem salvos mais tarde ou mais cedo, seja por força do amor, da convivência, de boas influências.

Quero acreditar que sim.

Gosto de acreditar que o bem triunfa sempre. E que aquela mãe, um dia, será amada como merece.

imagem@weheartit

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