Democratizar o “amo-te” sem o banalizar

Democratizar o “amo-te” sem o banalizar

Democratizar o “amo-te” sem o banalizar

Dizemos mais vezes “amo-te” que a geração dos nossos pais: amamos mais ou comunicamos melhor?

Não tenho a menor dúvida que é a segunda opção.

O amor, nos meus tempos de criança, era algo que existia, mas não era propriamente falado. Sabíamos que éramos amados pelos gestos, atitudes, mas não era propriamente dito.

Quando a minha filha nasceu ganhei asas, músculo, coragem, aprendi a dizer mais vezes “não” e infinitamente mais vezes “amo-te”.

Desde que nasceu que lhe é sussurrado ao ouvido, que a acompanha nos momentos de deitar, que lhe é dito quando está longe e faz uma chamada.

E isso, naturalmente, faz com que ela também mo diga, a mim e ao pai.

Ela cresceu na linguagem do amor. Não há constrangimentos nem amarras, dizer que se ama é tão leve e simples quanto senti-lo.

Mas aconteceram duas situações que me fizeram pensar.

No final do ano passado, sendo finalista do pré-escolar, foi feito um vídeo com todos os colegas para ser “oferecido” às educadoras e auxiliares. Era um vídeo em que falavam dos anos em que estiveram juntos, das memórias mais queridas que tinham, do que iriam ter saudades. No fim a Mariana disse “amo-vos muito”. E aquilo enterneceu-me. Porque sei que é verdade, que há amor por aquelas pessoas, mesmo que um amor que não é semelhante ao que sente por mim e pelo pai.

Senti que ela compreendia que o amor pode ser muitas coisas e pode. Que se pode amar com várias intensidades e estilos de amor. Que se pode amar muitas pessoas. E isso é algo bom, valioso.

Mais recentemente, no aniversário de uma amiga adulta de uma pessoa da família, com quem ela tem alguma proximidade, comentou comigo que tinha escrito “amo-te” no postal. Isto vindo de alguém recém alfabetizado, é uma honra. Mas senti alguma desconexão, não me pareceu que estivesse ali bem encaixado, ainda que compreenda que goste muito daquela pessoa, lhe tenha carinho… ali achei que o “amo-te” foi excessivo. Quando lhe perguntei por que motivo tinha escolhido aquela palavra ela respondeu-me ”porque é das poucas coisas que sei escrever”.

Pronto, foi validado o instinto de mãe, aquele “amo-te” tinha sido escrito pelas razões erradas. Não que não exista um certo amor pela pessoa, não é isso que está em causa, mas quando nunca lho dissemos nem temos hábito de dizer e escrevemos porque, bem, era isso ou “Lisboa, 11 de Fevereiro, gato, cão ou dói o dedo ao pai”, então não, não é isso que quero nem pretendo.

Foi o mote para uma conversa franca.

Tentei que percebesse que não havia nada de propriamente errado no que fez, que os sentimentos pela pessoa em causa eram legítimos e válidos, mas que… se queria escrever algo bonito no postal poderia sempre pedir ajuda, que tanto eu como o pai ditaríamos de bom grado a palavra que escolhesse escrever… que há coisas e palavras que são muito preciosas e não devem ser usadas como um “se faz favor”. Que sempre que disser “amo-te” deve senti-lo do fundo do coração e perceber que está a dar um enorme presente ao outro. O nosso amor é precioso e se não devemos racioná-lo, também não devemos banaliza-lo.

Umas semanas depois, ao escrever um postal para um dos amigos mais antigos disse-me: “mãe, aqui escrevi amo-te, mas é para o L., que é meu namorado, por isso pode ser, não pode?”. Sorri e disse que sim, sentindo que ela tinha compreendido.

Gostava que ela crescesse a dizer aos outros como são amados, mas sem se sentir obrigada a fazê-lo porque a pessoa faz anos ou porque espera que ela o diga. Quero que o faça por instinto, porque o amor é tão, tão grande que não há como o calar.

Depois de ela nascer passei a dizer muito mais vezes às pessoas de quem gosto o quanto gosto delas.

É tão ou mais importante que um abraço.

E agora, que estamos tão condicionados com os segundos, os primeiros são essenciais. Com verdade, acima de tudo.

Como deve, afinal, conjugar-se sempre o verbo amar.

MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

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