Depressão Vs. Ansiedade

Gostava de explicar isto bem.
Tentarei ser clara na minha pretensão.

A depressão é o excesso de passado.
A ansiedade é o excesso de futuro.
Na medida em que todos temos um passado e imaginamos um futuro, a diferença entre ser depressivo e ansioso reside no tempo que despendemos a pensar num ou noutro extremo.
Se pensamos muito no passado somos depressivos, se pensamos muito no futuro, somos ansiosos.
As pessoas tendem a acomodar-se num ou noutro extremo da vida.
Foi sempre assim.

Desengane-se aquele que pensa que o desequilibro é coisa moderna, que só agora é que as pessoas pendem, ora para um lado, ora para o outro – dependendo do estilo de vida e da fase da vida -, enquanto antigamente todos caminhavam a par, muito centrados e muito equilibrados, sem ansiedades ou depressões, sem stress, e sem analista.
Não é um problema das novas sociedades, não chega sequer a ser um problema sociológico. É uma fraqueza individual, antiquíssima.
A humanidade é naturalmente depressiva ou ansiosa, desde sempre.
Eu não sou depressiva porque me sobra tempo para depressões. Eu não sou depressiva porque não tenho nada para fazer. Eu sou depressiva por que já fiz.

E também não sou ansiosa porque sou insegura ou demasiado perfecionista, assoberbada, hiperativa. Eu sou ansiosa porque ainda vou fazer e não sei como fazê-lo.

Há almas mais propensas em acumular o lixo do passado, em revolver os restos nauseabundos deixados pelos outros, e por si próprios, e que teimam em retificar e curar mentalmente algo que já não podem alcançar.
Um bom exemplo para esta tendência, para esta dependência do passado, é bem visível nas pessoas que insistem em fotografar os momentos todos da vida. Mais tarde, inevitavelmente vão perceber que as fotografias que tiraram impediram-nas de certa forma de viver o momento, de saborear aquele prato, de sentir aquele beijo. Elas não querem beijar, elas querem é fotografar maravilhosamente o beijo. E vão lançar-se e colar-se ao passado fotográfico, substituindo memórias efetivas e reais por momentos-em-clic, e vão ficar terrivelmente deprimidas de os terem apenas na superficial retina e não na meninge. E ficarão ainda mais deprimidas porque terão sempre a pulsão de ir ver as fotografias que tiraram, imensas, no passado. E andam sistematicamente naquilo, depressivas, a perpetuar o que já aconteceu e que na realidade não aconteceu nada.
Entendam que há acontecimentos que devem ser esquecidos (para bem do presente) e há outros que não foram sequer acontecimentos.
Se fosse saudável ao ser humano registar e guardar para sempre todos os momentos da vida passada, a memória fotográfica não seria considerada um distúrbio mental, e todos a teríamos mais ou menos desenvolvida.
O mesmo para o passado. É saudável reviver passagens do passado. É depressivo passar a vida nesse passado.

Outros há que preferem descerrar o futuro, saber mais sobre o que aí vem. Não percebo claramente se é para se prepararem melhor, se para se acomodarem melhor.
E vão aos magotes consultar videntes, e bruxas, e fazem simpatias, e cosem a boca ao sapo, e desejam mal aos outros para bem deles próprios, e fazem promessas e pagam promessas, para no futuro, quem sabe – não acredito em bruxas mas… -, viverem então muito bem com isso, com a falsa consciência que andam aí a fazer pela vida.
Ah, afinal sempre vou comprar a casa nova. Está escrito nas cartas. Deixa-me enfim descansar que o que é meu às minhas mãos chegará.
Há de ser tarde que a casa chega.
Mas cedo virão as depressões, porque para se ser remediadamente feliz no presente (não pedimos mais que isso) é necessário lembrar como é que fomos felizes no passado, e a única coisa que vamos encontrar é uma ideia do que seria o futuro, ideia sem ação, vidência, expetativa, castelos no ar.
Nada se faz se não for efetivamente feito.
É um cliché, mas a verdade é que a felicidade não é uma nuvem no ar que apanhamos aos saltinhos. A felicidade é uma coisa que construímos desde o chão, de joelhos e dores nas costas.

Então quer dizer que os únicos culpados pelas nossas tristezas (ansiosas ou depressivas) são precisamente aquelas que não conseguiremos, jamais, controlar?
Do que nos serve ficar dias e dias a remoer no passado, ou dias e dias a conjeturar o futuro?
Não será então a cura para tantos estados de tristeza o enaltecimento do presente? Da simples avaliação do agora? O que tenho agora? O que faço agora? Quem sou eu neste momento? Como reconstruir-me para que as minhas memórias do passado [as que construo agora] não sejam de tal forma penosas que me levem, outra vez, para um estado de depressão?
Tudo o que fazemos agora fará parte do nosso passado. Convém fazer o melhor que podemos e sabemos para evitar arrependimentos e falsos positivos para doença mental.
É preciso construir muito bem o presente, que no futuro não será mais do que o passado, e é ao passado que vamos buscar todas as nossas motivações.

Lamento muito que a classe médica insista em embriagar o paciente depressivo e ansioso com drogas fortíssimas e entorpecentes.
A droga vai adormecê-lo e vai apagar-lhe o presente, que em última instância é a única coisa que tem de melhor para consegui desligar-se do que já passou (e que é mau e deprime) e do que ainda está para vir (que é possivelmente mau, o que me deixa ansioso), e ainda o que lhe dá a motivação para o futuro.

Que futuro então, para quem não tem senão uma ténue recordação do presente?
Que futuro para todos nós, eternamente e geneticamente depressivos e ansiosos?
Não estaremos todos a fraquejar? Não estaremos nós todos inundados de drogas que supostamente nos salvam do nosso passado e nos protegem do nosso futuro, imaginariamente?
É que eu já não consigo suportar mais o espetáculo da nossa fraqueza.

Porque que eu consigo entender D. Quixote sem conhecer a história de Espanha, no caso o seu imenso passado, mas não conseguirei entendê-lo nunca se não lhe (re)conhecer as ideias e as motivações que o fazem agir perante mim, agora, e assim esgrimir com o futuro a lógica da Humanidade.
E a lógica é só uma.
Avançar.
Sem medo dos mortos e sem medo dos que ainda estão por nascer.
Carpe Diem.

Por Uva Passa, para Up To Kids®
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Licenciada em Serviço Social, e Pós Graduada em Gestão de Recursos Humanos.

Dedica grande parte do seu tempo livre à escrita, à leitura e à arte. É casada e mãe de uma menina de oito anos, a frequentar a escola pública.
Um dia vai ser escritora, mas por enquanto continua a trabalhar.

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