I HAVE A DREAM, Sérvia 2015

I HAVE A DREAM (Martin Luther King 15/01/1920 – 04/04/1968)

Nota de autor: Escolhi o título “I HAVE A DREAM”, porque enquanto pessoa, e excluindo quaisquer convicções políticas, espero que um dia todos tenham o direito de sonhar e acima de tudo viver.

Eu podia começar assim o meu texto…
Eu tenho o sonho de que um dia o mundo se torne justo e seguro para todos. Que todos tenhamos os mesmos direitos e valores…

Estou na Sérvia. Vim ter com o meu marido que actualmente trabalha e reside aqui. No dia em que chegamos, o João estava a trabalhar e fiquei sozinha com os miúdos no apartamento, por isso decidi sair para conhecer a cidade. Até aqui parece um cenário normal, não é?
Mas o que eu vi estava para lá de longe da minha realidade diária.

O que eu vi, ao vivo e a cores, foi o que vejo na televisão, nos videos que passam no facebook e na internet, e confesso que na maioria das vezes, simplesmente, ou mudo de canal, ou nem sequer faço play no vídeo. Porque não é em Portugal e porque na grande maioria das vezes é doloroso de ver.

VI REFUGIADOS…palavra tão actual nos dias de hoje.

Mas na verdade o que vi foram mães, pais, filhos, avós, bebés, idosos…num jardim cedido pela cidade de Belgrado, mas sem quaisquer condições de higiene, em parte devido ao elevado número de pessoas que chegam diariamente a esta cidade.

Com as chuvas que se fizeram sentir na semana passada, ainda ficou mais caótico… procuraram abrigo em estacionamentos subterrâneos, provocando medos e inseguranças aos residentes, situação que não foi bem aceite por todos.

Como companhia todos carregam sacos de plástico, onde transportam os seus poucos pertences.

refugiados

E o que fazem eles aqui?

Tentei saber mais, mas não domino a língua e fui aconselhada a não os abordar sozinha. O certo é que eles estão visíveis aos olhos de todos, no Jardim Central, junto dos transportes públicos,

Belgrado é apenas um ponto de passagem, onde descansam dois ou três dias e perseguem a sua “viagem”, sendo que agora têm de ser mais rápidos, visto que a Hungria decidiu “fechar”as fronteiras, colocando arame farpado e acompanhamento policial.

Perdi-me a olhar para aqueles rostos sem expressão que, cansados, olhavam em redor, quiçá, à procura de um amigo, de um familiar, de um filho, que tenha iniciado esta viagem sem fim com eles.

Vi dor, angústia, medo, solidão, mas vi também amor, nos braços da mãe que envolvem o seu bebé ao colo, na forma como o pai leva água a boca da sua filha, na firmeza que o avô agarra na mão da avó que caminha a seu lado, no abraço dado por um grupo de amigos…

Houve um episódio que me marcou: um grupo de pessoas beijava à vez uma nota, suponho que fosse do seu país de origem. Seria a agradecer a sua chegada ali? Não sei… Fosse qual fosse o motivo, aquela conivência emocionou-me.

Mas vi acima de tudo ESPERANÇA, na sua mais pura e verdadeira forma…nos olhares brilhantes que encontrei nas suas faces sujas, porque eles acreditam, e eu quero acreditar, que a viagem há-de ter um final feliz: que irão encontrar um sítio onde vão conseguir viver em paz.

I HAVE A DREAM, de que um dia as guerras acabem, e os governantes deste mundo percebam que ele é feito de gente simples, pessoas como eles, como eu, como tu e que a única coisa que querem é ter uma VIDA…tão simples, ter direito a viver, sem medo, sem opressões.

Por quererem esse direito de viver, fugiram de um país que há muito deixou de ser seu. São famílias inteiras, separadas, são crianças sozinhas, jovens que se aventuram pelo desconhecido, tendo de lidar por vezes com a maldade humana, com pessoas que se aproveitam destas situações para escravizar homens, mulheres e crianças.

É lutar pela sua sobrevivência e caminhar sem nunca olhar para trás.  É avançar contra todas as adversidades, não saber falar a língua dos países por onde se passa, não saber onde nem quando vão poder descansar. Muitos não sabem o paradeiro dos seus pais, dos seus irmãos, dos seus filhos. Mas sejam quais forem as condições que lhes sejam dadas, serão sempre melhor do que aquilo que deixaram para trás.

I HAVE A DREAM…de amanhã ligar a televisão e esta realidade já não existir.

 

Catarina Garrau Santos, mulher, mãe, cidadã do mundo, Sérvia, para Up To Kids®
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