Ó Papão vai-te embora…

…lá de cima do telhado. Cantava-me a minha bisavó para me embalar.

A música ficou cá dentro e quando me tornei mãe da J., era uma das poucas que sabia e que cantava para a adormecer.

Acontece que o Papão agora já não está em cima do telhado. Revelou-se ao Mundo no 11 de Setembro de 2001, pela primeira vez e, pela última vez, há dias em França e na Nigéria.

Dei por mim a ter de explicar à J. o que é que se passou em Paris:

– Foram os bandidos que mataram uns senhores.

– E porquê, mãe?

– Porque são bandidos. Há pessoas boas e más no planeta e estes são maus.

Consegui que a conversa não fosse muito mais adiante. A curiosidade dela é grande, e a minha insegurança em passar-lhe a informação certa, também.

O que é que se diz a uma criança de seis anos, que se apercebe de que algo terrível aconteceu, porque a televisão da sala está ligada nas notícias?

Dias depois, o assunto veio novamente à baila:

– Mãe, porque é que aquelas pessoas estão todas juntas a caminhar pela rua?

– Porque estão a mostrar aos bandidos que não têm medo delas.

– Mas por que é que os bandidos mataram aquelas pessoas?

Voltei a raciocinar a mil à hora, com medo de falhar na resposta.

A responsabilidade de uma resposta destas é enorme.

Não queremos que tenham a noção real de que o Papão, da canção de embalar, são terroristas perigosos; não as queremos enganar porque é uma questão de tempo até perceberem que lhes mentimos e aí a explicação fica ainda mais difícil de dar.

A solução foi tentar aproximar a triste realidade do século XXI a uma miúda de 6 anos:

– Isto é como na história das Princesas. Por exemplo, a Branca de Neve, filha. Os bandidos são a bruxa que quer fazer mal à Branca de Neve e todas as pessoas boas, são os anões, a Branca de Neve e o Príncipe, que juntos conseguem vencer o mal.

Confesso que houve umas pausas brevíssimas entre palavras à medida que me saía a explicação.

Correu bem e a J. percebeu que na vida real há bons e maus como nas histórias de princesas que ela tanto adora. Ficou esclarecida e sem medo do Mundo real.

Eu, enquanto mãe, fiquei de coração apertado. O Mundo ao qual a trouxe está cada vez mais negro, mais perigoso, mais cheio de Papões. Os que para mim, na idade dela, só existiam nas canções da minha bisavó.

Por Irina Gomes,
para Up To Lisbon Kids®

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2 thoughts on “Ó Papão vai-te embora…
  1. Ana Mª A. Godinho diz:

    …é isso, as crianças apanham-nos de surpresa…são curiosas, perspicazes e, sensíveis ao k ñ lhes parece normal….sorte da J. ter uma mãetoninó, mas inteligente, rápida de resposta e, sobretudo, ir preparando-a com cuidado, sensatez, para o mundo cada vez +cruel, violento e perigoso em k vivemos….

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