O Pontífice da Crueldade

Começo por perguntar o que é a Força? Teríamos de ter em conta os seus vários espectros e dividi-los entre o que corresponde ao físico e o que corresponde ao psicológico. Ao aspecto físico apontaríamos o óbvio: massa muscular. À psique, a definição é mais difícil. Lealdade, integridade e honestidade, talvez. Bravura, sem dúvida. Também ao sermos beijados  na face pela adversidade, o termos a capacidade de ver luz ao fundo do túnel. É sobre isso que vos vou falar. De Força e falta dela.

Não existe qualquer dúvida que o ser humano sempre foi um animal providenciado de uma certa dose de crueldade. Essa carrinha de fornecedores chegou a tempo e horas, algures no decorrer da nossa aprendizagem do Ser. É, no entanto, uma característica que tentamos afastar ao máximo das nossas vidas. Desdobramo-nos como pequenos flyers informativos e revelamos o que de melhor há em nós. Deixamos a roupa suja fora da vista dos convidados que chegam a nossa casa. É perfeitamente normal. Ninguém se apresenta juntamente com um anexo agrafado à testa contendo uma pequena lista de defeitos. No reverso da moeda, há também alguns pontífices na arte da demonstração de crueldade, arte esta que se evidência muitas vezes em idade miúda e que, por vezes, se prolonga até à idade graúda..

Há um ano atrás, na Figueira da Foz, foi filmado um vídeo que nos mostra, com exatidão, esta mesma demonstração artística por parte de duas adolescentes e um pequeno grupo de colegas seus que desenhou um pequeno perímetro em semi-círculo à volta do jovem agredido. Acredito que o vídeo não fosse exatamente classificado “para todas as idades”, portanto, recomendaria prudência ao vê-lo. É-nos mostrado uma rapariga que prontamente toma a liderança, incitando os restantes colegas a participarem interessadamente nesta actividade extra-curricular. Chapadas atrás de chapadas precedem murros e pontapés. Não passou a mais nada talvez, pois o rapaz teve o bom senso de não resistir. Atentem, neste caso sim, chamo-lhe bom senso. Imaginem que, porventura, o jovem decidia ripostar. Facilmente as coisas ganhavam outras medidas.

Outro exemplo de violência desmedida: no domingo passado em Guimarães, aquando do jogo do Benfica, um polícia ataca um adepto por, alegadamente, ter cuspido e ameaçado o agente. O filho deste adepto estava a escassos centímetros do pai, a vê-lo ser espancado e algemado. A criança ficará obviamente com estas imagens gravadas na sua cabeça. Algo que nunca desejaríamos aos nossos filhos.

O meu pensamento dirige-se mais para a análise comportamental do Homem e dos seus porquês. Quais são os requisitos necessários durante a criação de um ser humano que fazem com que estes intintos animais se sobreponham à racionalidade e civilidade. Quem somos nós enquanto  pais, filhos, professores e enquanto elementos integrantes de uma sociedade e cultura para agirmos desta forma perante os outros?

Força não é bater em alguém porque podemos. Força não é ridicularizar alguém porque temos a possibilidade de o fazer. Força não é exercer poder sobre alguém aparentemente mais frágil. A verdadeira força está em saber que não gostamos de alguém e conseguirmos respeitá-los independente disso. Força  está em saber amar sem vergonha. Força é saber olhar uma pessoa nos olhos e pedir desculpa. Força é enfrentar o erro e repará-lo. Força é saber expressar sentimento na palavra como na acção. A grandeza não está nas pernas ou nos braços. Está no coração e na mente.

Para mim, e cito, “isto é força, isto é força”.

Por Diogo Lopes, 
para Up To Lisbon Kids®

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