O valor das coisas


Sabemos que estamos a falhar quando visitamos uma criança e a primeira coisa que ela faz é procurar um saco ou um embrulho nas nossas mãos.

Há já algumas gerações que os pais tentam dar aos filhos mais do que eles próprios tiveram: mais conforto, melhor roupa, mais diversão, mais coisas, enfim, uma vida melhor. Mas esquecemos que as crianças precisam do básico para estarem bem, precisam de pouco para serem felizes. Preferem duas tampas de tachos para fazer barulho do que o mais sofisticado jogo didático estudado para a sua faixa etária. A felicidade faz-se de coisas simples e somos nós, os adultos, que vamos criando necessidades, que vamos acrescentando pequenas características aos dias para que eles possam ser considerados perfeitos. Não o fazemos por mal, queremos que não lhes falte nada. Mas ao estarmos constantemente a dar coisas acabamos por lhes retirar o mais importante: a noção de que o que realmente é essencial é estar junto, estar presente, dar afectos.

Há pouco tempo fui a um aniversário em que a criança tinha feito uma lista de coisas que gostaria de receber. Eu também as fazia, se bem que se recebesse uma dessas coisas era razão para aquilo não sair do meu colo durante uma semana, apertada em abraços e beijos, fosse uma saia rodada, uma boneca ou um jogo. Ao receber um dos presentes mais caros da lista a tal criança limitou-se a rasgar o papel, a olhar para a mãe e a pousar a caixa (do carro telecomandado) do que tinha acabado de receber. O meu coração parou.

Nunca tinha visto uma criança que nem sequer esboçasse um sorriso ao receber uma coisa com que ele próprio tinha sonhado. Lembrei-me do orgulho que senti sempre da minha irmã, que ficava tão feliz com o primeiro presente no Natal, com o rasgar do papel, arrancar o laço, que a noite seria fantástica apenas com aquele presente. Ali foi diferente. Aquele miúdo esperava que as pessoas lhe dessem o que estava na lista. Era obrigação nossa. Não eram sonhos, não houve antecipação, houve uma mecanização das necessidades. Viu os anúncios no intervalo dos desenhos animados, apontou o que queria (e não o que gostaria de ter), a mãe diligentemente tratou de comunicar a toda a gente e ele não esperava outra coisa senão receber. TUDO.

Estava tão habituado a receber coisas que deixou de lhes dar valor. Provavelmente não sabe sequer o valor do que recebeu. Estou a falar de dinheiro, claro, mas também da atenção, da lembrança, do cuidado investido para que aquele carro telecomandado lhe chegasse às mãos. Saí de lá invadida por uma enorme tristeza. A desejar que não seja tarde demais, porque aquele miúdo só tem seis anos e já tem um caminho tão traçado. Ainda há pouco tempo ele ficava feliz quando me deitava de barriga no chão ao seu lado a fazer corridas de carros. Onde foi que ele se perdeu? Onde foi que o perdemos?

Queremos dar. Queremos ver a alegria dos miúdos a receber coisas. Queremos que estejam rodeados de pequenos objectos que lhes alegrem o dia, mas temos – nós, adultos – de perceber quando é que basta. Um presente que se dá só porque sim não pode substituir o carinho de estar lá. Não podemos dar constantemente porque não estamos tanto tempo quanto gostaríamos. As coisas são coisas e têm o seu espaço, a sua utilidade, mas nós é que devemos ser a força motriz da vida das nossas crianças. Nós é que temos de tirar tempo para nos descalçarmos e brincar com eles. De os envolver nas tarefas da casa, para que se apercebam de que as coisas não aparecem feitas como que por artes mágicas. De ir com eles ao supermercado para que percebam o dinheiro que custa aquilo que têm sempre em casa. Para os ouvir (mas não para fazer todas as suas vontades), para conversar com eles, para os habituar aolhar em volta, para que levantem os olhos do próprio umbigo. Para que aprendam a juntar dinheiro para comprar um brinquedo mais caro, que demora a conseguir, mas sabe tão bem. Para que percebam que mais tarde, mesmo que não tenham necessidade disso, ter um emprego de Verão não lhes vai roubar a preciosa adolescência e ainda lhes vai ensinar responsabilidade e o que custa ganhar dinheiro.

Porque o dinheiro custa a gastar e gasta-se muito depressa. Mas dá gozo podermos pagar do nosso bolso algo que gostaríamos de ter e de outra forma não poderíamos. E há quem não possa mesmo trabalhando. Adultos e meninos. Crianças exploradas cujo único indício de serem crianças é a sua idade. Crianças que mesmo não tendo praticamente nada são felizes. Que não se podem dar ao luxo de fazer uma birra.

Queremos tanto bem às nossas crianças que as estamos a estragar. Mas é tempo de irmos aprendendo também as nossas lições. Dizer mais vezes “não” mesmo quando poderíamos dizer mais vezes que “sim”. Educar é um trabalho difícil, pouco reconhecido, por vezes ingrato, mas somos nós que temos de o fazer.

Porque a responsabilidade é nossa quando trazemos uma criança ao mundo. De lhe dar o que precisa, de o mimar com o que talvez não precise tanto, de lhe ensinar o que sabemos e de irmos aprendendo em conjunto para sermos melhores. Para que o facto de hoje haver mais (apesar da maldita crise), não torne o nosso mundo num lugar menos desejável para se viver. O que se pretende é exactamente o contrário.

Eugénio de Andrade dizia:

É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

(…) “

Não nos esqueçamos do que realmente importa. Porque o que é urgente está dentro de nós e não há dinheiro que o possa comprar.

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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