Obrigada Rugby por tudo o que nos tiraste

Obrigada Rugby por tudo o que nos tiraste

Obrigada rugby, por tudo o que nos tiraste

Os meus filhos mais velhos jogam rugby. Pode-se dizer que os dois já têm mais anos de vida com do que sem o rugby. E eu tenho uma gaveta cheia de camisolas, calções, meias (as meias em menor quantidade, mesmo sendo grandes, até as meias do rugby têm um plano de fuga infalível), recordações de muitas vitorias, algumas derrotas mas sobretudo de muitas amizades.

Nestes 7 anos que os tenho acompanhado em treinos, jogos e torneios, outras coisas ficaram para trás e daí que eu hoje tenha acordado a pensar em tudo o que a nossa família já perdeu por causa do rugby.

1.O medo da chuva e da lama.

O rugby é um desporto de Inverno e ao ar livre. Há dias em que chove e nos dias a seguir à chuva há lama. Os treinos continuam mesmo nos dias de chuva e de lama. E a seguir continua a lama nas chuteiras, nos tapetes do carro, nos calções brancos (num belo mix com relva), nas mochilas que eles pisam quando entram no carro, no chão da cozinha onde eles finalmente descalçam as chuteiras.

2. Finais de tardes e fins-de-semana em casa colados ao sofá a brigar pelo comando da televisão.

O Rugby vive sobretudo do voluntariado dos treinadores, dirigentes, sócios, atletas e familiares. Se há um jogo no clube saltamos para trás do balcão do bar, se há jantar de Natal carregamos os blocos de rifas até convencermos a família e amigos a compra-las todas ou convencermo-nos a nós próprios a ficar com as rifas que pensámos que seriam fáceis de vender. Se há jogos fora enchemos todos os lugares do carro com atletas. E se há arraial de final de época fazemos bolos e salgados e pomos a música a tocar.

3. Tardes de compras enfiados no shopping em família.

Os jogos e os torneios são ao fim-de-semana e sempre que possível vamos todos. O mais novo tem 6 anos e diz que não quer jogar rugby. Eu acho que se sente inseguro por não entender as regras e não quer fazer má figura ao pé dos amigos mais velhos dos irmãos. Eu gostava que lhe desse o clique e que ele começasse a jogar, por enquanto só acompanha. Já acompanha desde bebé, cheguei a levar as sopas em termo para os torneios. Posso nem sempre estar atenta aos resultados e até me distraio dos jogos com alguma facilidade, mas gosto que estejamos ali os 5, no mesmo sítio e ao ar livre. Gosto de os aplaudir no final do jogo e de os confortar quando se magoam.

4. Horas, tardes e dias que podiam ser a fazer outra coisa qualquer só que não.

Nos últimos 7 anos temos passado horas, tardes e dias de convívio ao ar livre com os miúdos e com amigos, os nossos e os deles. Amigos que já conhecíamos e outros que ganhámos por nos encontrarmos tantas vezes fora das linhas do campo. Almoços, lanches, jantares e piqueniques a seguir e durante os jogos.

5.  O individualismo

O rugby é um desporto de equipa. Todos contam e todos jogam. Todos JOGAM. Nos escalões de formação do nosso clube, pelo menos até aos sub-14, não existe lista de convocados para os jogos e não existe limite de substituições nos jogos. TODOS jogam. Os atletas já sabem que é assim e quando alguém de novo entra na equipa todos têm de se esforçar para que o novo elemento aprenda as regras o mais rapidamente possível e se sinta integrado, porque sabem que no próximo jogo ele vai lá estar em campo, de mãos abertas para receber a bola.

Não há grande espaço para individualismos e craques embora aconteçam naturalmente alguns destaques em todas as equipas. Nenhum dos meus filhos é o melhor da sua equipa (e olhem que muito em segredo já desejei para mim às vezes que o fossem, embora só às vezes). E eu dou comigo a puxar muito mais pela equipa do que por eles individualmente.

Obrigada rugby, por tudo o que nos tiraste.

No último jantar de época do ano passado o treinador do meu filho mais velho emocionou-nos a todos, pais e jogadores. Ofereceu a cada atleta da equipa um livro escrito por si com uma dedicatória individual para cada um. O João Maria tem a sorte de ter um treinador de rugby que ao mesmo tempo é escritor e tem um coração enorme onde cabem os seus 5 filhos, a restante família, amigos e uma equipa inteira de rugby. E isto não é graxa para que ele ponha o meu filho a jogar, porque como eu já disse, no rugby TODOS JOGAM.

Obrigada rugby.

Obrigada por nos deixarem fazer parte desta família. Às equipas, obrigada. Obrigada treinadores, obrigada aos que não têm filhos, aos que têm 1, 2, 3, 4, 5, 6 filhos (sim um dos treinadores tem 6 filhos e por vezes abdica dos seus para ficar com os nossos). Muito obrigada por trocarem connosco o sofá lá de casa e o comando da TV por uma bola e um relvado, às vezes com chuva, e nos dias a seguir à chuva, com lama.

Obrigada por nos teres tirado estas coisas.

Casada e mãe de 3 rapazes com 7, 10 e 13 anos. Lá em casa somos 8.

A nós os 5 juntam-se dois cães e uma cabra anã, que afinal é um ele mas recuso-me a trata-lo por bode. Tenho material do bom em casa, histórias nossas que podiam resultar em gargalhadas, mas tenho três filhos que já sabem ler e não gostam que conte, nem um terço da acção que por aqui se passa. E eu respeito.

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