Os nossos filhos não são perfeitos.

Os nossos filhos não são perfeitos.

Aos nossos olhos os nossos filhos têm mais qualidades do que as que o mundo eventualmente verá neles, mas muitas vezes erramos ao não permitir que o mundo aponte as suas falhas.

O facto de compreendermos que somos humanos, com espaço para crescer, para nos desenvolvermos e desafiarmos é o que nos faz chegar mais longe. É o que nos faz, eventualmente, às vezes mais tarde do que mais cedo, perceber qual o nosso limite.

Existe uma escola preparatória em Lisboa que está a desenvolver um projeto educativo que acho muito interessante. As turmas são divididas em três níveis: baixo, médio e alto. No início do ano é feito um diagnóstico e os alunos são encaminhados para cada uma das subturmas. Estas subturmas são permeáveis, o que significa que um aluno que comece o primeiro período no nível médio pode eventualmente no segundo período estar no nível baixo, ou vice versa. A intenção é que todos acabem o ano no mesmo nível: o alto. Isto permite que os alunos sejam acompanhados de acordo com as suas necessidades de aprendizagem. Há espaço para expor dúvidas, para “atacar” a matéria onde existem mais dificuldades, há o incentivo para que os alunos queiram chegar mais longe.

Naturalmente, isto significa que há mais trabalho para mais professores. Este é um dos maiores problemas que atravessamos no nosso país: turmas sobrelotadas enquanto milhares de professores continuam sem colocação. Aqui há a oportunidade de ter uma mesma turma dividida em turmas mais pequenas, onde mais professores podem actuar.

O maior problema enfrentado? Os pais, naturalmente.

Diziam que havia preconceito com os que estavam no nível mais baixo. Diziam que afectava a auto-estima. Diziam que é pôr rótulos.

Era legítimo que os pais se preocupassem, mas a escola pediu uma oportunidade. Pediu aos pais que compreendessem o que estava em causa, que incentivassem os filhos e os fizessem compreender que, em conjunto com o corpo docente, não havia discriminação. Era tudo por eles. Para poderem ir mais longe. Para poderem aprender mais e melhor. Para se sentirem vistos e ouvidos na sala de aulas.

O resultado? No final do ano havia apenas duas subturmas, dos dois níveis mais elevados. Funcionou porque se acreditou num sistema que tem como prioridade o aluno e não o debitar infindável de um programa feito para não ser cumprido.

As notas subiram, os alunos viram a sua auto-estima aumentar, sentiram-se valorizados e, acima de tudo, encararam as aulas como um desafio. Participaram mais. Deram largas às suas potencialidades. Porque acreditavam que eles podiam chegar mais longe. Trabalharam com esse objetivo e no fim saíram vitoriosos. Havia um incentivo maior do que o resultado: o caminho a ser percorrido.

Acredito que este modelo educativo acabará por se espalhar por mais escolas, mas apenas se os pais assim o permitirem.

Haverá sempre quem não reconheça que os filhos não vão ser os melhores alunos, as melhores pessoas do mundo, os colegas de trabalho mais atenciosos, os companheiros de relação mais fiáveis.

Os nossos filhos são produto de tantas coisas, a maior parte das quais não controlamos.

Por isso, acredito que naquelas em que temos uma palavra a dizer deveremos estar do lado da solução e não do problema. Deixemos os nossos filhos perceberem que podem mais, quando isso é verdade. Que estamos aqui para eles mesmo que não tenham 100% no teste, mesmo que falhem de vez em quando.

Serão adultos mais funcionais e mais sensíveis aos que os rodeiam se perceberem que não se espera deles que sejam máquinas.

Os nossos filhos são humanos e devemos aprender a gostar deles assim.

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