Up To Dad # Lutas à mesa

A maioria das crianças não gosta de comer na exacta proporção que a maioria dos adultos  adora. Por isso, as refeições para as crianças são quase sempre um grande problema. Se não forem doces, claro. Porque doces até repetem, várias vezes: “Vou buscar aqui mais um pratinho de marshmallows, que estão óptimos”.

Sim, porque também não podem ser quaisquer doces. Têm de ser sempre os piores, os mais maléficos. Por exemplo, uns brócolos cristalizados as crianças não papam. Talvez lambessem a parte do “cristalizado”, mas o brócolo… come-o tu.

Instala-se portanto, muitas vezes, a crise à mesa das famílias, seja em casa ou seja fora. É tudo a convencer o menino ou a menina a comer. Começa-se com a diplomacia: “Vá, tem de ser, temos de nos alimentar senão ficamos fraquinhos”. Vem depois a política: “Só mais esta, prometo”. Depois a corrupção: “Se queres ir ao parque tens de comer a sopa”. Chega então a coacção: “Não me obrigues a levantar-me”. E a partir daqui tem de se recorrer ao uso da força. Vem tudo. O pai, a mãe, os tios, amigos, vizinhos e até os bombeiros de Samora Correia. Tudo a abrir a goela à criança. Só os avós estão contra: “Se não quer comer é porque não tem fome, não vês que está com um peso tão bom? Tira o macaco pneumático dos maxilares do menino, Carlos Alberto!?”.

Na verdade, os avós têm alguma razão. Se uma criança estiver com o peso bom e controlado, não me parece necessário proceder a uma espécie de cirurgia doméstica para a alimentar.

Mas esse nem é para mim o ponto essencial desta questão. Verdadeiramente patético é nós estarmos sempre a dizer que se deve comer várias vezes ao dia, contra aquela ideia de enfardar às refeições, mas depois queremos que as crianças enfardem às refeições. E se não enfardam a bem, enfardam a mal.

Tenhamos consciência de uma coisa. A alimentação é talvez a coisa mais básica num animal; e nós, embora cada vez mais evoluídos, ainda não perdemos aquelas raízes mais selvagens. A verdade é que começamos a comer sozinhos ainda na barriga das nossas mães. E naquele período mais estúpido do ponto de vista intelectual, em que comunicamos por berros, também sabemos pedir mama. Há horários indicados pelo pediatra, sim, mas o recém-nascido não deixa ninguém dormir se tiver fome.

O que leva então os papás a pensar que a criancinha que não quer comer está em processo de autodestruição e portanto temos de agir rapidamente e em força!?

“Sim, mas é que o Zézinho não come às refeições e depois quer comer porcarias” – desabafam. Pois, mas então o problema não é do Zézinho, é de quem lhe dá porcarias depois. Se a criança não come ao almoço, é claro que passado uma hora ou duas tem fome. É a tal natureza. Mas porque razão lhes damos pão, papas ou iogurtes? Comam a sopa. Se já têm fome, comem a sopa e a pescadinha.

“Não, não, não e não” – responde o Zézinho, muito zangado, porque já foi habituado a almoçar cereais a meio da tarde. Mas se ele diz não, é porque não tem mesmo fome, porque o Zézinho não se deixa sucumbir. “Venha de lá essa sopa” – dirá, mais minuto, menos minuto.

Uma coisa é certa: Quando obrigamos as crianças a encher o bandulho, independentemente da fome, só porque são horas de “encher o bandulho”, não estamos a cuidar delas, estamos só a cuidar de que elas cometam os nossos erros, particularmente no campo da alimentação. “Que maravilha de sopa. Há mais?” – Perguntou entretanto o Zézinho.

imagem@drprem

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