Velhos são os trapos

Hoje no jardim fui interpelada por uma senhora com alguma idade. Perguntava-me se eram gémeas. Demorei alguns segundos a perceber o que me dizia. Olhei em volta e reparei que uns passos à frente da minha filha estava outro bebé, outra menina. Este bebé era fisicamente completamente diferente da minha filha, para além de que não estávamos juntas e isso era, para bom observador, evidente. E entendi o que aquela senhora queria. Respondi-lhe. Falei-lhe de que muitas vezes nos encontramos por ali mas não somos da mesma família e que ela, a senhora, também era uma cara reconhecida. Os seus olhos brilharam. Provavelmente foi a primeira vez neste dia que alguém lhe dirigiu a palavra. Era isso que ela procurava, sentir que estava ali, sentir o reconhecimento de outra pessoa, ter uma conversa, por mais breve que fosse, com ela. Falámos mais um pouco e depois despedi-me. A minha filha fez o mesmo. Sente muita simpatia por pessoas mais velhas e tem o hábito de as cumprimentar pelo caminho, quando vamos pela rua. E sei como isso as deixa contentes. Precisamente por isso: deixam de se sentir invisíveis.

Na Índia as crianças são ensinadas desde pequenas a tocar os pés dos mais velhos como sinal de respeito pela sua idade e maturidade, e também pelo longo caminho que já percorreram. De certa forma, os mais novos agradecem a dedicação dos mais velhos e os sacrifícios que estes foram fazendo ao longo da vida para que as gerações seguintes pudessem viver dignamente. Sinto que entre nós ainda há muito pouco respeito pelos mais velhos. Muitos são deixados ao abandono pelas famílias, vivem vidas de miséria, solidão e ainda há demasiadas pessoas a sofrer maus tratos.

Nada disto aconteceria se as nossas crianças vissem nos mais velhos alguém “sagrado”. Jamais ousaria levantar a voz aos meus avós, responder-lhes ou reclamar de algo que tivessem feito. Nem aos meus avós nem aos avós de alguém, em que circunstância for. E isso vem da educação. A educação é 90% das vezes a resposta.

Nós, pais, temos o dever de ensinar as regras básicas da cidadania. Se tivermos pessoas mais velhas na família ou círculo próximo, a lição pode ser dada pelo exemplo. Para quem não tem há sempre uma situação ou outra em que nos cruzamos com alguém de idade.

Sei que há pessoas que ficaram amargas (muitas já o seriam em novas), outras sentem que a idade é posto e maltratam também elas os mais novos. A educação funciona em todos os sentidos.

Não nos esqueçamos que somos os velhos de amanhã. E serão as nossas crianças a lidar connosco.

Com amor, paciência e tolerância tudo se consegue.

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