Dia mais do que perfeito

Acordas um pouco antes do despertador tocar. Um momento apenas. Chegas a mão ao telefone e constatas que, afinal, são duas da manhã. Estás sozinho na cama. A ausência dela, revela que os sons sentidos (mais do que ouvidos) eram da bebé a chorar. Ela já lá foi. Acalmá-la. Ou dar de mamar…talvez sejam sinónimos. Custa-te. A tentativa de voltares a dormir tranquilo é vã, mas a frase não te sai da cabeça: “Que noite horrível! Não pode ficar pior!”

O resto já não é sono, é uma espécie de nada. Um par de horas mais tarde, o do meio (ai o tanto para dizer sobre o filho do meio…) acorda mal disposto. Levantas-te e dás-lhe água. Ainda ficas na dúvida. Pode ser medo. Estás de volta ao quarto e ouves o barulho que te faz voltar para trás. Chegas e percebes que o teu filho vomitou. “Uns choram, uns vomitam…o que vão fazer mais?!”

O resto já não é noite, é uma espécie de manhã antecipada.

Sais para o trabalho depois de constatares que a balança não ajudou nessa manhã. Culpas a retenção de líquidos. Culpas os genes. Culpas a noite mal dormida. Culpas os miúdos. Talvez pela falta de segurança, não cativas as pessoas com quem te cruzas no trabalho. Sentes que não gostam de ti. “Estes não estão mesmo a ir com a minha cara…

Enfrentas o dia de trabalho no teu pior. Com sono. Cansado. Com olheiras. Com calor. Com um frio no estômago, causado pela dúvida sobre a causa da má disposição do teu filho do meio. Dás por ti a deixar o carro descair, quase batendo no de trás. Os pensamentos estão num turbilhão. Em vez de teres a cabeça “limpa” para chegar bem para apanhar o teu filho, aumentas as probabilidades de não chegares por teres um acidente.

Apanhas o miúdo e ainda chegas a casa com mais vontade da corridinha da ordem. Nada te vai impedir. Os miúdos já têm lá a mãe, já podes. Sais disparado. Sentes uma fisgada no gémeo. Voltas para casa lesionado. O miúdo continua mal disposto. A bebé chorou na Escola. A tua companheira tem um aspirador para andar a tiracolo. Achas estranho. Gritas com todos!

Pegas no copo de vinho e sabe mal. Está quente. Ou frio. A culpa deve ser também da retenção de líquidos. A bebé parece estar especialmente rabugenta. O rapaz, bem, o rapaz, passou o dia a vomitar…pede para vestir um pijama de inverno e nem está frio. Também deve ter febre. Ou é friorento. Deve ser dos genes, dado que também lhe custa um pouco levantar, como à mãe.

Voltas à questão base: Será que sei viver? Será que sei educar? Será ?! Precisas virar o jogo. Ou ir dormir. O que podes fazer?

Há duas saídas. Ou deixas o dia andar, e vais-te deitar. Ou arriscas. Ou sonhas. Ou tentas brilhar. Tentas sorrir. Podes telefonar àquela pessoa, podes dar um beijo prolongado à pessoas que amas, podes pedir um abraço de grupo ou podes falar com a tua mãe. Também podes pegar no teu livro. Ou ouvir a tua música. Podes ir para a rua tentar conhecer alguém. A sério. Podes arriscar. Foi o que eu fiz. Guardo para mim os pormenores da opção que escolhi, mas o risco fez-me viajar até às questões essenciais. E as frases, as respostas, nem sempre vêm completas. Por vezes, há uma frase misteriosa capaz de catapultar um bom sentimento.

 “Se ouvires essa música com atenção, vais encontrar um pouco da nossa história.”

Pus a música a tocar, e assim relembrei que a vida tem a cor que tu lhe dás. Sete cores de um arco-íris imaginado.

  • Nem sempre dizemos aquilo que queremos dizer. Nem sempre as nossas palavras, a nossa linguagem, consegue expressar tudo aquilo que estamos a sentir. E o outro, o que nos ouve, também vai interpretar à sua maneira. É a complexidade da comunicação a perigar o nosso bem-estar.
  • Por vezes, também dizemos para nós mesmos coisas que não devíamos dizer. Somos vítimas do nosso pensamento. Vítimas de um mau diálogo interior. “Que noite horrível! Não pode ficar pior!” Esta frase, estas palavras, estes pensamentos, fizeram-me bem? Ajudaram a minha mulher? A minha família? E, já agora, ninguém vomita por querer.
  • “ Estes não estão mesmo a ir com a minha cara…”. E depois? Será que todos têm que gostar de mim? Claro que não. E mesmo os filhos, se eu estiver no bom caminho, vão ter momentos em que “não gostam de mim”. Agradar a todos não é para todos. Talvez não seja para ninguém. Há-que tirar da cabeça o querer “agradar a gregos e troianos”.
  • Pensar leva a agir. E pensar no momento errado nas coisas erradas leva a más ações. Em alguns momentos, deves agir (guiar com calma, com assertividade) para colocar o cérebro a pensar no essencial. A ação repetida também leva a modificações nos sentimentos e nos pensamentos. Concentra-te nas mudanças, nos pedais, na estrada…
  • Pede desculpa. Tão simples quanto isto. Se gritaste com alguém que não tinha culpa, pede desculpa. Assume que erraste. E, se for rotura muscular, coloca gelo. Lembra-te sempre: Quando o casal está bem, os filhos estão também, por isso, pede desculpa.
  • Arranja um despertador para os miúdos. Um para acordarem e, porque não, um com um alarme para a hora de deitar! Se lhe custa levantar, pode ser sono. Pode ter dormido pouco.
  • Completa os enigmas que a vida te apresenta. “Se ouvires essa música com atenção, vais encontrar um pouco da nossa história.” Se leres com atenção o que escrevi, vais encontrar algumas das tuas perguntas. Sim, perguntas. São, quase sempre, mais importantes do que as respostas.

E assim, o dia terminou. Mais do que perfeito.

 

Por Alfredo Leite, para Up To Kids®
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Gosto de iniciativas “sem tretas” e com alma. Como a Up to Kids, por exemplo.

A criação do Mundo Brilhante permite-me visitar escolas de todo o país e provocar os diferentes públicos para poderem melhorar. Agitamos. Queremos deixar marcas.

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