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E se não Correr Tudo Bem?

Não me levem a mal. Não me levem mesmo a mal. Mas o que querem as pessoas dizer realmente com “Vai Correr Tudo Bem”?

Fiquei grávida pela primeira vez há, quase, três anos. Depois de duas perdas estou agora a poucas semanas de conhecer a nossa primeira filha, a Joana. Nestes três anos, na sequência de muitas outras experiências que me ajudaram a aprender a desfrutar tudo na vida – o bom e o mau – continuo a ter muita dificuldade quando me dizem: “Vai correr tudo bem”.

Cada vez mais acredito que a vida é mesmo assim. Avançamos com uma nova aventura e aparecem-nos percalços. Desta vez foram três anos de contratempos consecutivos que se mantêm ainda hoje, cada vez que vou a uma consulta na maternidade e surge mais uma dúvida, mais um problema. Hoje, na ida habitual à farmácia para aviar medicamentos para os vários obstáculos que surgiram nesta terceira gravidez, a pessoa que me atendeu dizia-me “você tem aqui um quadro clínico complicado. Para além disso, está a correr tudo bem?” Rimo-nos tanto porque, sim, além desta lista gigante de dificuldades na gravidez, está tudo bem.

“Vai correr tudo bem…”

Se calhar é má interpretação minha. Quando uma mãe que nunca perdeu um filho, que teve uma gravidez sem impasses, que deu de amamentar sem dificuldades, que teve um parto simples me diz “Vais ver, vai correr tudo bem”, não é de todo o que quero ouvir.

A forma como escolhi lidar com este percurso e que tanto me tem ajudado em tudo o resto na minha vida é saber que, corra bem ou mal, eu vou ficar bem. Vou chorar e vou ficar sem chão como tantas, mas tantas vezes nos últimos anos, e ainda assim o meu coração saberá sempre recuperar. Aprender com a situação. Isso sim, que delícia tem sido. Descobri fortalezas dentro de mim que desconhecia totalmente. Até físicas. Vou poder dizer à minha filha que a mãe, que tinha medo de toda a dor física, agora lhe pode garantir que também ela terá capacidade de lidar com tudo o que a vida lhe trouxer neste aspecto.

Nichiren Daishonin, o fundador de uma escola budista japonesa, escreveu “Sofra o que tiver que sofrer. Desfrute o que existe para ser desfrutado. Considere tanto o sofrimentos como a alegria como fatos da vida.” Como isto é verdade. Não fugir do sofrimento com ilusões permite-nos sempre estar preparados para tudo. Sabendo que no fim vamos sempre ficar bem.

Agora…vai correr tudo bem…? Sempre?  Nem pensar. Aqui acredito estar a raiz de tanto sofrimento desnecessário. Não é preciso. Para todas as futuras mães, mulheres, crianças e homens, nós caímos as vezes que forem precisas. Mas sabendo que tudo faz parte da vida.

Mais uma vez, não me levem a mal. Sei que a intenção é boa.

imagem@mama66

Por Ana Calha, Blog Prá Vida Real

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