Estamos a criar super miúdos!

Os nossos maiores ensinamentos enquanto pais acontecem silenciosamente, nos gestos que fazemos, na forma como nos comportamos na presença dos outros, no modo como lidamos com uma série de situações com que acabamos por nos deparar diariamente.

É óbvio que os miúdos aprendem também o que lhes dizemos, tantas vezes como se fosse um mantra: “pede por favor”, “como é que se diz?”, “já cumprimentaste y ou x”? porque a repetição também cria o hábito.

Mas a responsabilidade real é a que acontece da primeira forma, porque os nossos filhos crescerão para serem adultos que querem ser iguais aos pais ou que querem ser exactamente o oposto deles.

No desfile de carnaval da escola da minha filha dei-me conta, mais uma vez, que aos miúdos raramente há o que lhes passe ao lado. Uma das mães entregou serpentinas a um colega da minha filha e ensinou-lhe como fazer, como soprar para ver a magia da serpentina acontecer. O rosto dele encheu-se de preocupação e a primeira coisa que fez foi baixar-se para apanhar as serpentinas do chão. “Não podemos mandar papéis para o chão!”, disse. Olhei para a mãe e sorri. Ela baixou-se e tentou explicar-lhe que naquele dia, porque era Carnaval não havia problema. Aliás, era suposto porque era uma brincadeira, mas o filho não ficou confortável, como se aquela excepção à regra fosse confusa. E acaba por ser, porque passamos o ano inteiro a evitar fazer lixo, a apanhar o mais pequeno pedaço de papel para o chão para depois andarmos a mandar ao ar confetis coloridos que deixam as ruas cheias de cor. Resultado: passou o desfile a apanhar as serpentinas do chão. Reparei também que durante a semana a minha filha brincou com as serpentinas que lhe dava, toda feliz da vida, mas antes de virmos embora apanhou todas elas e colocou no lixo sem que eu dissesse uma única palavra. Acho graça e um pouco exagero, mas mantive-me à margem. Se sabem brincar e aproveitam e depois limpam o que fazem, por mim tudo bem.

Estão bem ensinados e certamente não serão daqueles adultos que muitas vezes apanhamos no trânsito a mandar papéis da pastilha elástica pela janela. É o básico “deixa tudo como encontraste”, já que diariamente têm de arrumar os brinquedos e os jogos, os sapatos no sítio e por aí fora.

Este exemplo deixa-me com esperança e aumenta a responsabilidade que sinto. Porque tudo o que faço vai ficar gravado na memória e na retina da minha filha, se não para utilização imediata, para o ser no futuro.

Às vezes a vida não vai ser exactamente como as regras ditam, vai haver obstáculos que obrigam a alguma ginástica, criatividade e é importante que os nossos filhos saibam ser ágeis. Mas têm tempo para treinar essa agilidade.

Primeiro precisam de cimentar os princípios e os valores que serão a base da sua vida. Depois trabalharemos com eles a flexibilidade que a vida exige. Estamos a criar super miúdos!

Há um lugar e um tempo para tudo.

Para já é deixá-los serem crianças, com os nossos ensinamentos a pairarem como numa nuvem por cima deles.

Vai correr tudo bem. Como poderia não correr?

imagem@weheartit

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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