Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

As crianças são cativantes. Há crianças impossíveis de “resistir”, com as quais temos vontade de interagir de imediato, seja na sala de espera do pediatra, seja no jardim ao fim do dia.

Mas as crianças são pessoas, não nos esqueçamos. Têm direito ao seu espaço, à sua privacidade. E por que é que falo disto? Porque há sempre alguém que se sente no direito de mexer no cabelo dos nosso filhos, de fazer festinhas infindáveis sem perguntar se o pode fazer, de apertar as bochechas – e tudo isto quando ainda são bebés de colo.

Tenho uma amiga que quando estava grávida passava muito mal com o toque que as pessoas faziam questão de lhe impor. Ora, se uma pessoa está grávida, a barriga é para ser acariciada por todos, certo? Errado! Há mulheres que não gostam e têm direito a ser respeitadas. Eu aprendi a ir perguntando se posso fazer uma festinha, mas só o faço quando existe alguma proximidade entre a grávida e eu – mesmo sabendo que dificilmente a pessoa do outro lado diria “não, desculpa lá mas não vais fazer festinhas nenhumas nesta minha enorme barriga”. Seja como for, pergunto. E a pessoa sente-se consultada, como se importasse. E importa, porque o corpo é dela.

Curiosamente, esta mesma amiga teve um bebé lindo, ruivo de olhos azuis. Um verdadeiro chamariz. Na rua poucas pessoas não paravam para espreitar, falar, mexer. Ora, desculpem-me, mas isto do mexer na criança é igual a mexer-se na barriga. Se não é próximo, não toca. Se é próximo, tenha a sensibilidade de perceber se faz sentido, se é oportuno.

Porque daqui a dezasseis anos nenhuma destas pessoas vai ter a lata de chegar ao pé do miúdo no meio da rua e despentear-lhe o cabelo, dizendo que vai quebrar corações e que tem cá um olho mais lindo…

Se não o fazemos a adultos, porque o fazemos com as crianças?

Hoje, ia no metro com a minha filha e tinha o telemóvel na mão. Estava a guardá-lo na mala e ela viu-o. Pediu para segurar. Não deixei. Para mim telemóvel não é brinquedo e ela habitualmente não mexe nele. Ultimamente tenho cedido a deixá-la ver fotografias porque revive momentos que a marcaram, mas sempre comigo a supervisionar. Não tenho jogos, nem nunca tive. Sim, sou esse tipo de mãe, que nunca deu o tablet à filha nem o telemóvel para ela jogar. Mas adiante, ela ficou contrariada e começou a choramingar. Foi caminhando na plataforma, de mão dada comigo, a dizer que queria o pai. Cem vezes seguidas, sabem como é. “Quero o pai, quero o meu pai, o pai, quero o meu pai”. E a minha tolerância é grande mas sei que as pessoas à volta não têm de ser danos colaterais destas “birras”. Cheguei-me a um canto e baixei-me para estar ao nível dos olhos dela enquanto ela continuava com aquela choraminguice e estava a começar a falar com ela para a acalmar quando vejo uma sombra laranja que se aproximou e começou “Ah, que grande birra! Isso é tudo sono, queridinha? Dormiste pouco, foi?”. Interrompeu-me e não gostei. Nem olhei para a senhora, limitei-me a pegar na minha filha ao colo e avancei uns passos para poder, finalmente, falar com ela. Eis que vejo novamente a mancha laranja aproximar-se e desta vez a tocar no braço da minha filha para a ouvir com mais atenção. Mal começou a dizer “sabes uma coisa? Vem aí o homem mau e…”. Não a deixei acabar. Fiz algo que provavelmente deixaria os meus pais um pouco desiludidos, mas simplesmente afastei-me virando costas, sem olhar uma segunda vez para a senhora (nem olhei a primeira, não saberia sequer dizer que idade tinha, apenas que pela voz teria mais de cinquenta anos e, por isso, deveria saber o que estava a fazer). Fui, em marcha, a falar com a minha filha, que se acalmou e me explicou porque estava a chorar, consegui explicar-lhe por que motivo chorar quando é contrariada não ajuda, apesar de perceber que ela não consegue ainda expressar-se muito bem. Fiz ali o meu trabalho de mãe, mas muito a custo.

Não pude deixar de pensar, que a semelhança do rapaz ruivo, se fossem dois amigos de trinta anos a conversar, um deles mais abatido que o outro, a senhora JAMAIS se aproximaria e interferiria na conversa. E ainda bem.

Não tenho nada contra a interacção que naturalmente surge com as crianças, não me interpretem mal, mas se não têm nada de positivo para acrescentar, então dispenso, obrigada.

Houve muitas situações em que pessoas com boa energia se aproximaram e tentaram distrair a minha filha em algum momento, porque gostariam mais de a ver a sorrir do que a chorar. E essas serão sempre bem vindas.

Tenho sempre isto no fundo da minha cabeça quando interajo com os filhos dos outros. Saber diferenciar em que momento é apropriado ficar à distância e quando faz sentido fazer parte.

Acredito que todos juntos somos melhores. E não podemos ser melhores quando estamos rodeados de julgamentos, críticas e intervenções despropositadas.

E é esse o exemplo que devemos passar aos nossos filhos.

Para que o futuro seja bom, para que o mundo esteja cada vez mais povoado por pessoas que só multiplicam o bem.

imagem@weheartit

 

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Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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