Eu dei Melamil aos meus filhos

“A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.”

Eu dei Melamil aos meus filhos

Queridos pais:

Esta carta não pretende ser uma crítica em relação às vossas escolhas ou aos conselhos dos pediatras em relação ao sono dos vossos filhos. Pretende sim, ser um relato de uma mãe que se sentiu a perder o Norte e a afundar-se, numa zona sem pé.

Tenho 3 filhos e fiquei 6 anos sem dormir uma noite completa. Todos sabemos dos efeitos da privação de sono num adulto. Imaginem numa criança.

Os meus filhos mais novos sempre (desde os 4 meses) dormiram a noite completa, mas com a mais velha foi tudo diferente. Amamentei-a até aos 10 meses e, na altura, mamava a cada 4h durante a noite. A introdução de alimentos correu muito bem e as rotinas das refeições sempre foram muito regulares. Inicialmente, não estipulei um horário de sono rigoroso: aos 9 meses fazia 3 sestas por dia, e por vezes ficava acordada ao serão connosco. Era o tempo que tínhamos para estar em família e aproveitámo-lo muito bem. Depois mamava e adormecia. O problema é que, quando estava eu no 1º sono, ela acordava para mamar. Mais tarde, passou aos biberons, mas nunca deixou de beber o seu leite à noite.

Conto isto, porque acredito que se lhe tivesse “tirado” o leite à noite, talvez não crescesse com um ritmo de sono interrompido.

O sono é uma coisa muito estranha que precisa de ter uma rotina estanque.

Mesmo em adultos, nós sabemos que basta uma ou outra noitada para nos estragar o ritmo de sono de uma semana.

Quando a minha filha acordava à noite para beber leite, se não lhe desse o seu biberon chorava estridentemente. Nesta altura, já tinha uma irmã bebé, com quem partilhava o quarto. Sempre foi mais fácil dar o leite do que gerir o problema. Mas não me critiquem, eu já estava num grau de cansaço extremo. E estava grávida do meu 3º filho.

Quando os ia deitar, dava de mamar ao bebé e colocava-o no berço. Depois deitava as meninas. A mais nova adormecia enquanto rezávamos. A mais velha ainda bebia um biberão de leite sozinha e, já na cama, pedia-me que ficasse um bocadinho com ela. Eu sentava-me na sua cama ora a contar uma história, ora em silêncio. A sua dificuldade em adormecer era grande, e veio a piorar com aparecimento dos medos que desenvolveu depois dos 3 anos – da morte, do escuro, de estar sozinha e até medo de não conseguir adormecer. A hora de ir para a cama tornou-se também para ela um problema.

E eu ficava lá.

Porque ninguém quer deixar uma criança aterrorizada à noite. Porque seria pior se chorasse e acordasse os irmãos. Porque me sentia encurralada num túnel de um só sentido.

Deixei de ter serões com o meu marido porque quando acabava de adormecer a minha filha, já só tinha tempo para deixar roupas e almoços preparados para o dia a seguir. Eu chegava a ficar 1h30 ou 2h no quarto com ela e a luz de presença.

Inconscientemente, por cansaço ou preguiça comecei a deitá-los cada vez mais tarde. Acho que o antecipar daquelas 2h começava a deprimir-me. Os meus outros filhos, por consequência, começaram também a deitar-se mais tarde. O que eu não previ foi que, passando a “hora do sono”, vem a excitação. E quando me apercebi disso, tinha os miúdos com 4, 5 e 7 anos, a deitar-se tardíssimo. Passavam metade do dia a chorar por tudo e por nada, começaram a comer MUITO pior, caíam e magoavam-se mais vezes, estavam sempre distraídos na escola, enfim. O cansaço tornou-se visível a olho nu. Tornámo-nos numa família que andava sempre aos gritos. E os miúdos também já gritavam uns com os outros.

Eu estava desesperada e resolvi agir.

Já tinha lido sobre o Melamil mas estava renitente em relação a medicar os meus filhos para dormir. Para quem não conhece, o Melamil  é um “suplemento alimentar natural à base de melatonina que ajuda a diminuir o tempo necessário para conciliar o sono.”

Foi a parte do “natural” que me convenceu. Pensei que sendo natural, mal não iria fazer.

Nem falei com o pediatra. Já estava decidida e agora não queria argumentos para voltar atrás.

Falei com umas amigas que me explicaram: “é maravilhoso para ajudar a adormecer, mas se for uma criança que acorda várias vezes à noite, vai continuar a fazê-lo.”

Tranquila. Agora só queria pô-los na cama cedo. Avancei.

Comprar Melamil

Comprei na farmácia onde não me perguntaram nada – nem se era a primeira vez, nem se foi o médico que recomendou, nada de nada. Parecia  tudo muito natural.

Li a posologia onde indica as doses recomendadas de acordo com as idades e adverte que o suplemento não deve ser administrado sem aconselhamento médico. Por isso, dei a dose mínima à minha filha para ver se resultava: 4 gotas, meia hora antes de se ir deitar.

Diz também que deve ser administrado durante 3 meses sempre à mesma hora. Achei um exagero: só precisava que se voltassem a deitar a horas decentes, e não faria sentido um tratamento tão longo.

No primeiro dia, 15 minutos após tomar as gotas, a minha filha mais velha pediu para ir para a cama. Eram 20h45. Nem queria acreditar. Entre lavar os dentes, deitar-se e eu dar um beijinho, já estava a dormir. Nem rezou. Não fiquei lá até adormecer. Não fiquei sem serão (pensei eu). Eu parecia maluca de radiante. Depois, tinha os outros dois, agora já com horários trocados, ainda a pé. Achei que vendo a irmã a dormir conseguia metê-los na cama sem stress ou demoras. Mas não foi assim. Começaram a chamar-me por tudo e por nada: um quer água, o outro tem frio e foi mais uma hora nisto.

No dia a seguir nem pensei duas vezes: gotas para todos.

Foi a loucura, antes das 21h estavam os três a dormir. Eles nem aguentavam os tais 30 minutos.

A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.

Até que um dia o frasco acabou. Nessa noite, sem gotas, tentei deitá-los à mesma hora destas últimas semanas, mas o sono chegou ainda mais tarde do que antes.

Lembrei-me que o tratamento deveria ser de 3 meses, então comprei mais uma embalagem.

E voltou a resultar. Nós começámos a descansar mais, os miúdos ficaram mais bem dispostos porque já estavam a dormir um número de horas apropriado à idade, verificaram-se melhorias a nível de rendimento escolar (nem falo em termos de avaliações, mas o entusiasmo e a concentração eram outros).

As rotinas de sono na nossa casa passaram a ser tão rigorosas como sempre foram as das refeições. Sentia-me feliz e orgulhosa.

Embalagem após embalagem, passaram 3 meses. O tratamento acabou.

Percebi que o tratamento tinha acabado e, sinceramente, nem me preocupei. As rotinas estavam tão bem impostas que seria impossível voltar perder o ritmo. Na verdade eu já nem me lembrava de como era quando eles se deitavam tardíssimo. Que estupidez… nem percebi como é que cheguei a esse ponto. Fui mesmo descuidada.

Às 20h30 pedi-lhes que lavassem os dentes e as mãos para irem para a cama. Assim foi. Mas enquanto estavam na casa de banho, a festa era grande porque um deu um pum e uma delas salpicou o espelho de pasta de dentes com a gargalhada que deu. A excitação era grande, e obviamente,  quando chegaram à cama não tinham sono.

A mais velha, ao aperceber-se que não estava a cair para o lado voltou a pedir que ficasse no quarto a fazer companhia. Não quis voltar atrás, agora já adormecia tão bem sozinha. Disse-lhe que não. Passados 15 minutos estava a chorar de pânico porque não conseguia adormecer. Os outros, mantinham-se na cama mas iam falando entre quartos. E eu, a tentar que acalmassem! Percebi que a confusão estava instalada, e que já não poderia voltar a usar o Melamil. Dei copos de água, fiquei um bocadinho em cada quarto, tinham calor, depois outra coisa qualquer.

O mais novo foi o primeiro a adormecer, eram 22h30. As meninas, adormeceram quase à meia noite.

O suplemento alimentar com melatonina criou nos meus filhos uma habituação tal que deixaram de conseguir adormecer sem ele. Sim, eu sei que dei sem aconselhamento médico. Aqui pensei que se calhar deveria ter dado outra dose, ou ter feito o desmame antes de completar os 3 meses… Mas estava completamente às escuras.

Comecei a imaginar que toda a vida iriam precisar de suplementos para dormir, e que a culpa era minha.

Rotinas

Resolvi então mudar alguns hábitos nas suas rotinas, e ao mesmo tempo, arranjar maneira de começarem a produzir melatonina de forma natural.

Deixaram de ver televisão e brincar com gadgets depois da hora do jantar. Está provado que o uso excessivo de gadgets tira o sono. É chamada a “Insónia tecnológica”(dizem).

A luz, também diminui a produção de melatonina, por isso, passei a luz de presença para o hall e gradualmente fui diminuindo a abertura das portas para os quartos, até que se habituaram a adormecer totalmente à escuras, e sem medos.

Todos os dias à mesma hora, começaram a ir para a cama cada um com o seu livro, para 15 minutos de leitura.

Alimentação

Depois investiguei sobre a alimentação: o que poderia dar-lhes que aumentasse a produção de melatonina (que é o que faz o melamil)?

  • Abacaxis
  • Arroz
  • Aveia
  • Azeite
  • Bananas
  • Cebola
  • Cerejas
  • Cevada
  • Espargos
  • Gengibre
  • Laranjas
  • Milho doce
  • Nozes
  • Sementes de linhaça, sementes de abóbora, sementes de chia
  • Tomates
  • Uvas

Estes foram alguns dos alimentos que descobri que estimulam a produção de melatonina, e que dei aos meus filhos.

É importante ressalvar, que o ideal é dar estes alimentos em cru, para que sofram o mínimo de alterações e cumpram mais eficazmente a sua função.

Estas alterações resultaram e, hoje em dia, os meus filhos deitam-se a horas normais para as idades.

Mas este processo não foi do dia para a noite.

Passámos mais de 6 meses a cumprir rigorosamente uma rotina “tolerância zero” quer fosse fim de semana, férias, ou dia de escola.

Obrigou-me a repensar muitas vezes os menus, para conseguir incluir ao máximo os alimentos em questão, tanto ao almoço como ao jantar. A melatonina estimulada por alimentos não deve ser ingerida apenas ao jantar: “o organismo habitua-se a produzir a hormona e depois torna-se um acto continuado, que sincronizado com as rotinas e um ambiente propício, ajudará a criar e a manter um ritmo saudável do sono.”

Esta é apenas a minha história que já foi criticada por muitas mães de crianças que nunca foram um problema para adormecer e por tantas outras, que tendo o mesmo problema, deram Melamil aos filhos durante um curto período de tempo, e resultou. Sabemos que todas as crianças são diferentes, e o que funciona para umas não funciona para todas.

Por isso, antes de se porem a achar que fui má mãe saibam que fui a mãe melhor que consegui ser. E continuo.

 

Por Margarida Alvim, carta de leitora, para Up To Kids®

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  3. Olá, muito interesante o artigo.
    o meu filho tem 2 anos e meio e só numa fase muito curta é que dormiu relativamente bem. Acorda imensas vezes por noite e de facto a hora de ir dormir passou a ser desesperante e uma tortura para nós.
    diz sempre que não quer dormir e luta imenso contra o sono, dá-nos secas de cerca de 1 hora para adormecer e agora que deixou a chupeta quer sempre companhia.
    Quanto há sesta, aqui admito que dorme bem, na escola dizem o mesmo.

    Gostava de ouvir a vossa opinião quanto ao seguinte:

    devemos reduzir à hora da sesta? para hora e meia, 2 horas no máximo
    qual vos parece a hora indicada para deitar? 21 horas?

    obrigado e cumprimentos a todos

    • Olá Helena, a hora de ir deitar numa criança de dois anos não deve ser posterior às 21h, mas isso depois varia de acordo com a rotina de cada família, e com as horas a que a criança acorda. Nesta idade as crianças precisam de dormir cerca de 13h (segundo a associação americana do sono). Uma sesta de 2 horas 11h durante a noite seria ótimo. Mas se na escola a criança dorme 3 horas, poderá dormir um pouco menos à noite. É importante que tanto a sesta como o ssono noturno tenham uma hora regular para acontecer, acompanhados da respetiva rotina, para que a criança regule o seu relógio biológico. Tal como os adultos, quanto mais regulares formos na hora de ir dormir, mais depressa adormecemos, fator muito importante nas crianças, porque aqule tempo que ficam para adormecer, em muitos casos 1/2h, é tempo desperdiçado que não descansam, não brincam e não aproveitam o dia.

      Um beijinho

  4. Parabens a esta mamã… podemos não ser as melhores mães do mundo, mas fazemos o melhor que sabemos!
    Foi o que esta mamã fez.
    Kiss

  5. Bom dia,o que me fez ler este artigo com profundo interesse foi a sua sinceridade, o admitir desespero, cansaço, disposta “a tudo” para emendar algo que não estava bem, e isso hoje em dia além de criticado é julgado é quase tabu. Temos todos momentos desesperantes e o ensinamento foi que não há mal nenhum em admiti-lo
    Eu sou uma mãe de dois filhos que praticamente não sabe o que é ficar noites sem dormir, os dois dormiram muito bem a horas religiosamente certas e com bons hábitos alimentares. Mas mesmo sem saber o que é sentir-me realmente privada de descanso,compreendo o desespero e a necessidade de alguns pais começarem a olhar para outras soluções

  6. Bom dia,
    Excelente artigo, mas algo tendencioso.
    Eu dei Melamil à minha filha. Nunca dormiu uma noite seguida desde que nasceu e nem sestas decentes fazia. Não lhe dei Melamil sem consultar um pediatra especialista do sono, só após algumas consultas ele receitou isso mesmo. Apenas para ajudar com as rotinas noturnas e nunca como solução milagrosa.
    Tomou durante 3 meses, abaixo da dose recomendada e fomos fazendo o desmame.
    Agora adormece sem grandes problemas.
    Ou seja, nem todas as crianças são iguais e algumas precisam mesmo de ajuda. Mas nunca se deve medicar sem consultar um especialista e ir acompanhando o evoluir da situação.

    • É verdade Sandra, cada caso é um caso, e parece-me que o mais importante a retirar deste exemplo é não administrar medicamentos sem consultar o especialista. Creio que a ideia desta mãe era alertar para isso, e no fundo, desabafar sobre aquilo que, para ela, foi um problema que se foi arrastando. <3

  7. Bom dia,
    Excelente artigo, mas algo tendencioso.
    Eu dei Melamil à minha filha. Nunca dormiu uma noite seguida desde que nasceu e nem sestas decentes fazia. Não lhe dei Melamil sem consultar um pediatra especialista do sono, só após algumas consultas ele receitou isso mesmo. Apenas para ajudar com as rotinas noturnas e nunca como solução milagrosa.
    Tomou durante 3 meses, abaixo da dose recomendada e fomos fazendo o desmame.
    Agora adormece sem grandes problemas.
    Ou seja, nem todas as crianças são iguais e algumas precisam mesmo de ajuda. Mas nunca se deve medicar sem consultar um especialista e ir acompanhando o evoluir da situação.

  8. Hugo Filipe Lopes em

    Infelizmente, natural está muito longe da adjectivação correcta para o Melamil, basta ler a lista de ingredientes onde se incluem frutose e diversos conservantes como sorbato de potássio, benzoato de sódio assim como aromas de proveniência incerta.

  9. Só quem nunca esteve privado de sono poderá criticar as suas decisões. O meu filho mais velho dormiu mal até aos 5 anos. Nunca houve apenas um motivo. Um ano depois nasceu o mais novo. Nunca houve falta de rotinas nem de tranquilidade para adormecer. O pior é que o mais novo era igual ou pior logo a partir dos 4 meses. Ainda não dorme completamente bem. Mas está muito melhor. Tem agora dois anos. Experimentámos o Sonomil a recomendação da Pediatra e já com a mãe de baixa médica. Era o desespero. Ao fim de uma semana desistimos. Não fez rigorosamente nada. Salvou nos a homeopatia. Mas os gritos, os nervos, o stress demoram passar. Só gostava que os médicos, as entidades patronais e as pessoas em geral dessem algum apoio aos pais que passam por isto. Na verdade parece normal ter um filho e dormir pouco. Mas não é. Afeta nos a todos. E tenho muitas dúvidas que não seja para sempre. Muita força para quem passa por isto.