Eu vejo-te – Carta a uma adolescente

Eu vejo-te
Não me limito a olhar para ti, vejo-te.

Já tive a tua idade, treze anos, e sei como tudo o que sentes é exacerbado em duzentos por cento.

Há dias em que acordas e estás triste, sem saberes porquê. Quando chegas ao pé das tuas amigas pensas que sem elas não serias ninguém, porque foram elas que alegraram o teu dia.

Não te apercebes da forma como te tratam, como se devesses estar agradecida por poderes dizer que és amiga delas. No fundo, é o que sentes, porque elas são populares e falam de uma maneira confiante e não se envergonham dos seus corpos nem têm as borbulhas chatas que teimam em pontuar o teu rosto.

Gostas delas, mas principalmente gostas que gostem de ti. Não tens a oportunidade de experenciar esse gostar muitas vezes. Em casa amam-te, mas não se lembram de to dizer. (Eu digo-to sempre no teu aniversário, mas pensando bem também eu falho, porque não é suficiente. Em trezentos e sessenta e seis dias, um dia não chega. Vou melhorar, prometo. Porque gosto mesmo muito de ti).

Quando te olhas ao espelho vês uma série de coisas que não adoras. Não te demoras nos teus olhos, redondos e grandes, com um tom de castanho raro. Não te apercebes da forma dos teus lábios, que é sublime quando sorris. Só vês a dificuldade em desembaraçar o teu cabelo e não as ondas que se formam de maneira tão natural.

Para te sentires melhor “cobres-te”. Com roupas que as tuas amigas aprovam e os rapazes reparam (mesmo que te deixem desconfortável na maior parte das vezes), com maquilhagem que não deverias usar porque não é para a tua idade (e porque não precisas dela), com os últimos ténis de marca que toda a gente usa. Com essa “embalagem” sentes-te mais segura, consegues calar por momentos as vozes que estão dentro da tua cabeça e que te dizem que não és bonita o suficiente. Que não tens um corpo desejável. Que ninguém quer estar ao pé de ti se usares uma t-shirt comprida e o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. É bom lutares contra essas vozes, mas tudo o que fazes é superficial. À noite tiras do corpo esse peso todo que transportas e é contigo que tens de dormir.

Sabes que mais? Tenho mais dezassete anos que tu e vejo as coisas de outra maneira. Não é fácil, mas tu consegues.

Livra-te dessas amigas que inferiorizam os outros com base nos seus “defeitos” (a ti incluída, se prestares atenção), volta a dar importância à escola, onde sempre te saíste tão bem e agora pareces fazer questão de que seja ao contrário, aprende a ver-te. E a gostar de ti. Terás sempre coisas que não gostas tanto. Aprende a viver com elas, porque vão estar sempre aí. Quando não forem essas serão outras.

Sei que tens dificuldade em falar. Achas que os adultos não te compreendem (provavelmente porque quando falaste não te ouviram com a atenção que merecias), mas não guardes para ti tudo aquilo que pensas. Escreve. Num caderno ou num blogue. Ninguém precisa de saber que és tu. Mas deita cá para fora. E depois lê o que escreveste. Vais aprender coisas sobre ti. Vais dar valor a algumas coisas e corrigir a maneira como vês outras. Vai ajudar, prometo. Se te sentires com coragem escreve uma carta à tua mãe. Diz-lhe o que pensas. O que gostavas que fosse diferente. A forma como ela pensa estar a ajudar-te e não está. Ela também precisa de saber e só tu poderás dizer-lho. Ouve-a mais vezes, ela tem o coração no sítio certo, mas não sabe como chegar a ti.

Sonha, não tenhas medo de sonhar. Mas acima de tudo, sonha pela tua cabeça. Pensa naquilo que realmente desejas. Tu, não o que os outros esperam que desejes, não o que achas que os outros vão querer ou esperar de ti.

Pode não parecer, mas eu vejo-te, não me limito a olhar para ti.

Tens um longo caminho pela frente e vai ser tão bom. Juro.

Vais ser muito feliz… Aconselho-te a começar agora!

(Nota: esta é uma carta para uma menina que vi crescer dentro da barriga da mãe, ser criança e entrar aos trambolhões na adolescência. É uma carta para alguém que está perdido e que não o reconhecendo não deixa ninguém aproximar-se. Faço o exercício que lhe aconselho, escrevendo. Pode ser que alguma coisa lhe chegue ao coração. Tenho a certeza que sim…)

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