mães desnecessárias

Mães desnecessárias

Mães desnecessárias

“A boa mãe é a que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo.”

Um amigo psicanalista costumava dizer esta frase, e sempre me soou estranha.

Agora os meus filhos já não são bebés e chegou a minha vez de reprimir o impulso natural materno de querer manter a cria debaixo da asa. De querer proteger de todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que tenho dentro de mim (temos todas!), lembro-me logo desta frase.  Hoje tornou-se absolutamente clara.

Se eu criei os meus filhos para serem adultos autónomos, tenho de me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe mais rápida me acuse de não amar os meus filhos, passo a explicar:

As mães desnecessárias não deixam que o amor incondicional, que sempre existirá, crie vício e dependência nos filhos. Como uma droga ao ponto de não conseguirem ser autónomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar o seu rumo, fazer as suas escolhas, superar as suas frustrações e cometer os seus próprios erros.

Em cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. Em cada nova fase uma nova perda é um novo ganho para os dois lados. Para  a mãe como para o filho. Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.

Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo.

O que eles precisam é de ter a certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis. Mas no dia a dia somos mães desnecessárias.

Pai e mãe solidários criam os filhos para serem livres.

Este é o maior desafio e a principal missão da parentalidade. Ao aprendermos a ser “desnecessários”, transformamo-nos no porto seguro para quando eles quiserem atracar.

 

Por Márcia Neder, Psicanalista e Psicóloga Clínica

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