A mãe fica meu amor

A mãe fica meu amor

Há catorze meses que este bebé está comigo. Nove meses na minha barriga, cinco no meu colo. Nunca me separei dele por períodos maiores que meia-dúzia de horas. Todas as manhãs o vi acordar. A maior parte dos meus dias é passada com ele no colo e, em dias mais difíceis, ando com ele na mochila para conseguir despachar as tarefas domésticas enquanto lhe vou cantando que “a barata diz que tem…”.

Conheço todas as expressões deste bebé.

Sei onde lhe tocar para o fazer rir. Sei o que lhe dizer para o acalmar. O cheiro dele é o mais perfeito dos cheiros mesmo quando se bolça e aquele travo azedo se cola na roupa. Os olhos dele são grandes, a pele absurdamente branca e o sorriso pura magia.

Sei que no momento do parto o corte do cordão umbilical separa o bebé da mãe e, em termos puramente físicos, essa é uma verdade indiscutível. Mas, para mim, o verdadeiro corte, aquele em que experimentamos pela primeira vez a angústia da separação, acontece no dia do nosso regresso ao trabalho.

É verdade que viver quase exclusivamente para um bebé é desgastante.

Mas isso não impede que o regresso à vida laboral seja de uma violência atroz. O coração de mãe aperta-se na hora do voltar à antiga rotina e a ansiedade transforma-se numa companhia permanente. Dói quase fisicamente termos que nos separar do nosso bebé, do nosso pequenino, daquele ser que é quase uma extensão natural de nós próprias.

O meu regresso ao trabalho está a chegar.

E a mãe que sou tem medo de não estar preparada. Tem vontade de bater o pé e dizer que não volta. Tem vontade de encher este filho de beijos. De o apertar nos braços e de lhe dizer ao ouvido “a mãe fica meu amor”. 

Quem me dera poder ficar.

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  1. A frase “Quem me dera poder ficar” não devia ser a final… ou então o titulo do seu proximo texto. Esta frase pensada por mim muitas noites a olhar para o berço serviu me de “provocação”…. mas então um contrato… a sociedade… mandam mais que a minha vontade que vem bem aqui do meu coração??? Se não trabalhares para dar um tecto e comida para o teu(s) filhos(s), e tens algum “suporte” como o pai que pode assegurar essa parte básica… o Querer é Poder. Não tens muita certeza? Extende só a licença para 8 meses a licença primeiro… e pensa mais um pouco enquanto o teu coração se acalma e se prepara para essa “separação”…. Art art 56 codigo do trabalho…. dá te “essa permissão!”. Sim podes 🙂 só decide se queres. p.s eu fui a 1a numa empresa de 1500pessoas a extender a licença…. vale muitooo a pena! No segundo baby tirei 1 ano…. muitas duvidas? sim! voltei e está tudo igual na empresa, na carreira…. para mim? Expandi a minha sede pessoal com muito orgulho do que fiz para a sociedade! Arrisca pelo teu bébe se não for por ti!

  2. Oh… estou exatamente na mesma situação, 9 meses na barriga, 6 no colo e a três semanas de o deixar para voltar ao trabalho… embora as vezes diga que só quero sair e ter vida própria, agora que se aproxima o dia começa o aperto no peito?

  3. Compreendo perfeitamente… e há tanto por dizer… deixo-lhe um pequeno texto que escrevi na véspera do meu regresso ao trabalho da minha segunda licença de maternidade. ??
    “Aquela vontade de chorar inexplicável que as mães sentem, quase sempre sem querer mas no fundo sabendo porque sim, hoje teima. É normal, eu já a esperava. Mas não me preparei para o luto destes nossos últimos sete meses últimos. Hoje o dia é pesado, carrega todas as emoções e cansaço e uma saudade que veio para ficar. Nestes nossos últimos sete meses últimos não houve hipótese para sestas nem uma santa noite seguida. Recuperei da facada assim em cima do joelho, sei lá se tenho os ovários cosidos ao intestino ou se a bexiga ficou desviada… está tudo a funcionar e (já!!!) não dói, siga, temos muito que fazer. Temos que assistir ao Amor com todo o seu esplendor. Entregarmo-nos a ele e a Ele de corpo e alma, porque só assim saem as grandes obras, que ainda que (felizmente ) não sendo perfeitas são absolutamente sublimes. Ele e ela. Azul e cor-de-rosa. Sim, azul e cor-de-rosa! Eu gosto. Foi duro, alguns dias foram impiedosamente duros nesta licença de maternidade. Mas como todas nós mães sabemos, o dizemos tão simplesmente: “é o melhor da vida”.
    Amanhã a página vira e eu regresso ao trabalho que me escolheu. “O sol já nasceu! ” como diz o Gui e temos que ir viver a vida noutros encontros, noutros afetos, noutras formas de amar. Porque é isso que para mim a escola tem que ser: um lugar de amor.”

  4. Que lindo texto!!! Para além de colega de profissão, o meu príncipe também acompanha-me à 14 meses( 8?+ 6?) ?? e opto por ainda ficar …sem “vontade” de regressar!!! beijinho