as mães também choram

As mães também choram

As mães também choram

A maternidade é uma das coisas mais universal do mundo.

Se, por um lado, isso nos ajuda a sentir que somos como tantas outras mães, muitas vezes também sentimos que por isso, por ser tão universal e tantas mulheres o viverem os nossos dramas nos isolam. Sentimos culpa, sentimos que não devíamos sentir coisas menos positivas, que não devíamos perder a paciência, que somos mal agradecidas em algumas ocasiões.

Sermos mais uma na maioria em alguns dias faz-nos sentir pequenas.

À conversa com a mãe de um amigo da minha filha senti mais uma vez a importância de sermos sinceras umas com as outras e partilharmos também as nossas derrotas. Ela contava-me que num final de um dia mais complicado, com birras, se tinha sentado na cama e chorado. E que o marido lhe tinha perguntado por que estava ela a chorar, porque não se tinha apercebido de nada de extraordinário.

Às vezes é assim, cumprimos esta nossa missão com tamanha assertividade que é uma surpresa para as outras pessoas quando nos vamos abaixo.

Mas isso acontece e é comum a todas as mais, numa altura ou outra do seu caminho.

Há as que choram no pós parto, as que choram quando amamentam, quando deixam de amamentar. Quando têm de pôr os filhos na creche, quando os vão buscar à creche mais tarde do que gostariam, quando vêem as contas a aumentar e têm de fazer ginástica para fazer face a todas elas. Quando se separam e percebem que a vida dos filhos nunca será igual (nem a sua) à que planearam, as que choram simplesmente porque estão cansadas.

Há alguns meses eram raros os dias sem incidentes à saída da escola da minha filha. Foi uma fase de birras feias em que a maior derrotada fui eu e a parentalidade positiva. Mas aí percebi que nenhum tipo de parentalidade resultaria porque simplesmente a minha filha entrava em modo automático e não via nem ouvia nada. Era exasperante e ela acabava por adormecer no caminho de casa, exausta. E não foram raras as vezes em que acompanhei o seu sono com lágrimas silenciosas. Lágrimas que me escorriam pelo rosto enquanto revia uma e duas vezes o que poderia ter feito de outra maneira, onde podia melhorar, o que poderia fazer no dia seguinte para evitar este desgaste.

Aos poucos as coisas foram melhorando, até porque as crianças vão crescendo de dia para dia, ultrapassando as suas próprias barreiras.

Chorei em frente à minha filha – contra o que algumas pessoas me disseram que deveria fazer “para ela não perceber o efeito que tinha em ti”. Permiti-me chorar exactamente pelo contrário, para que ela pudesse testemunhar que as suas acções têm consequências. Naturalmente que não chorei para lhe imputar um sentimento de culpa, num discurso de “vês como a mãe fica quando te portas assim?”. Chorei porque não aguentava mais e em vez de ir para o quarto esconder-me, deixei que ela visse. Abri a porta ao diálogo.

E senti a empatia dela.

Ajudou-nos a falar do que tinha corrido mal.

E foi a excepção, naturalmente. Não tenho qualquer memória de ver os meus pais a chorar. E não quero que essa seja uma memória activa da infância da minha filha. Mas ali foi orgânico. Porque ao pé dela já chorei de felicidade, de emoção.

Por que motivo nos escondemos quando as nossas emoções não são positivas?

E quando a mãe do amigo da minha filha, que eu considero uma super mãe, super assertiva e firme, sempre no controlo de tudo, me disse que tinha chorado eu senti-me abraçada. Acompanhada. Compreendida. Senti que fazia parte para todas nós.

As mães mais ou menos seguras.

As mães mais ou menos disciplinadoras.

As mães mais ou menos sensíveis.

As mães.

Porque as mães choram.

E não há mal nenhum nisso.

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