Mulher radical, mãe medricas. Porque quando és mãe ganhas medo.

Mulher radical, mãe medricas. Porque quando és mãe ganhas medo.

Mulher radical, mãe medricas. Porque quando és mãe ganhas medo.

É certo e sabido, com “n” estudos científicos a comprovar que a maternidade é coisa para mexer com o nosso cérebro, hormonas, sensações, psique, etc e tal, e até com a visão. É coisa séria. Tal como é coisa séria tudo o que vem depois. Eu não imaginava sequer ser possível limitar propositadamente a minha vida porque agora sou mãe. Eu explico melhor.

Mãe sem filhos

Enquanto fui “solteira de filhos”, como costumo dizer, não me incomodava nada experimentar um carro e verificar qual a velocidade máxima que podia atingir (eu sei que não se deve – não comecemos já os julgamentos). Também não me incomodava nada sair de casa sem ter um dia planeado e ir fazendo as coisas à medida que surgiam, por exemplo, num fim de semana fora.

Não me incomodava mesmo nada participar em coisas como descidas de rios em canoas e passar nos rápidos, parapentes ou até todo o terreno em carros ligeiros em carreiros de cabras enfiados no meio da serra, sem rede de telemóvel.

Jamais me incomodaria sair de casa de madrugada, passar o dia todo em viagem e regressar ao final do dia com centenas de km acumulados (muitas vezes, sem GPS). O meu coração não se incomodava minimamente em querer viajar para cada vez mais longe, de avião ou a pé, não importava, e greves de combustíveis ou médicos ou enfermeiros era coisa de meninos.

Ser mãe. Mãe medricas

Mas, um dia, o teste de gravidez mostrou dois riscos e toda a minha coragem de miúda (in)consciente teve ali morte súbita e todos aqueles medos que ignoramos e sabemos racionalmente que são ridículos brotaram quais ervas daninhas depois da chuva.

E começam as perguntas parvas logo no momento da ecografia “não são gémeos siameses, pois não? (burra todos os dias… essa malformação ocorre aquando da separação do óvulo e nunca já quando há embriões formados; muito menos quando cada um tem o seu saco). E o medo de a gravidez não avançar. E o medo de ficar doente e ser logo uma doença incurável e terminal. E o medo de sequer pôr o pé fora da cama porque vamos enjoar até à enésima potência. Mas vem o medo de ficar na cama e ninguém quer uma gravidez assim. E a catadupa assombrosa e pateta de uma associação de ideias não para. Mas a gente sacode a cabeça, relega os medos para o arquivo morto e segue em frente.

E depois nascem as bebés e, caramba, ui!

Parece que o inferno de Dante e a caixa da Pandora se uniram dentro da cabeça da mãe e nem o Freud consegue dar conta disto. Não há psicanálise, terapia ou fármaco que o valha, de forma nenhuma. Eu chegava a ter pavor de andar sozinha com o marido de carro porque se nos acontecesse alguma coisa, as piolhas, como seria? Combustível sempre atestado porque podemos precisar de ir ao hospital com as piolhas e depois, como é?

De forma racional, sem deixar que os medos se transformem em algo patológico. Um pouco como aquele ciúme dos primeiros tempos que nem sequer queremos que o pai pegue nos bebés -, há que saber lidar com isso.

Eu ignoro o mais que posso.

Não deixo que molde a minha vida e a verdade é que, já depois de ser mãe, desci o Mondego de canoa (eu não sei nadar). Já consegui andar sem telemóvel sem pensar constantemente “e se me ligam da escola das piolhas”. Consegui ir trabalhar a mais de 1h de distância de casa. Até andei de speed boat (ok, as piolhas também andaram e fomos um bocado ao engano, mas não interessa, também conta).

Mas, ao ver um episódio de The Outdoor Man em que a matriarca da família se apercebe que deixou de ser aventureira e ousada porque foi mãe, não pude deixar de me identificar. Voltaremos a ser aventureiras e ousadas mais tarde, mas, para já, eu admito que deixei de fazer algumas coisas porque tenho filhos. E, adiei ainda mais uma série de planos e o riscar de coisas da minha bucket list porque as minhas filhas têm autismo.

Não tenho medo de fazer essas coisas.

Hey, eu quero ir ao Camdodja! E quem me conhece nem imagina que é algo muito fora da minha área de conforto citadino. Não tenho medo de ir, tenho é medo de não voltar para as minhas filhas. E isso dá ali um apertozinho no peito… Assim, para já ainda não (até porque a minha conta bancária ainda está a rir à gargalhada deste meu desejo). Mas mais tarde, claro que sim! Não é uma desistência – é um adiamento.

Isto tudo porque as piolhas vão começar uma nova fase escolar numa nova escola e este meu coração quase que pára. Isto tudo para dizer que é possível encarar e enfrentar estes pensamentos e estes receios e estes medos patetas. O nosso lado racional tem que se fazer ouvir. E nunca deixar que mostremos aos nossos filhos que temos estes pavores. São coisas nossas.

A partir do momento em que passamos a ser “nós” e não “eu”, há demasiadas variantes e coisas que entram numa equação que não podemos controlar. Mas podemos e devemos controlar os nossos medos e evitar que se tornem patológicos. E chegar à conclusão de que as nossas mães passaram pelo mesmo… E conseguiram ultrapassar.

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Um T2. Uma família que passa de 2 para 4. Um (duplo) diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.

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