O coração de mãe não é de ferro

O coração de mãe não é de ferro

O dia em que desenhei um coração para falar de amor

Continuas a testar limites, meu amor.

É assim que vais encontrando as balizas da tua acção, é assim que percebes até onde podes ir – até onde te deixo ir.

Às vezes com graça, outras só com muita lata, vais dando mais um passo, só para ver o que acontece.
E algumas vezes o que acontece é seres chamada à atenção, porque a situação assim o exige.

Digo-te sempre que o que mais quero é que sejas feliz e é verdade.

Mas também é verdade que quero que sejas bem formada, que tenhas valores, que respeites os outros e te respeites e isso só vai acontecer se cresceres para ser uma pessoa boa, decente. E é por isso que aqui estou, a chamar-te à atenção, a ralhar-te.

Por vezes percebes de imediato a asneira e ainda não olhei para ti e já estás a pedir desculpas. De outras precisas de uma longa conversa. E há ainda as outras em que tenho de subir de tom.

Tento ser sempre justa como foram comigo e se a minha argumentação é legítima tenho de enfrentar as consequências e muitas delas passam por ver-te a ficar desiludida ou triste. Sou tua amiga mas, acima de tudo, sou tua mãe. E não ponho esse papel em pausa só para te poupar a frustração.

E acontece também achares que por não estar a sorrir, fazer cara séria e colocar os pontos nos is, possa gostar menos de ti.

Foi por isso que desenhei um coração.

Grande, como eu. Onde cabem tantas coisas e tantas pessoas. Onde o teu lugar é cativo. Para que entendas, precisamente, que o teu lugar é cativo.

Desenhei o meu coração e preenchi-o. Mostrei-te onde estava o meu amor por ti. E depois desenhei um coração mais pequeno, igualmente cheio.

E expliquei que diminuiu de tamanho por estar triste angustiado. Como às vezes te digo que o meu coração está deste tamanho (mostrando o espaço entre o indicador e o polegar como exemplo) para que percebas como estou triste quando acontece algo que gostávamos que fosse de outra forma.

E disse-te que o meu amor por ti está lá dentro do meu coração e esse não diminui, não encolhe, preenche-o por completo, faças tu o que fizeres. Mas que coração de mãe não é de ferro e por isso não é duro: para o bem e para o mal.

Percebeste.

Quando te deitei há algumas noites disseste-me que o teu coração estava assim e mostraste os dois braços abertos. Querias dizer que foi um dia bom.

Que gostavas quando eu te cantava ao ouvido ao deitar, quando te fazia miminhos ao dizer boa noite.
E eu respondi que o meu também. Que são muitos mais os dias em que o meu coração mal cabe no peito do que aqueles em que está a precisar de aumentar de tamanho.

Falo-te de amor da melhor maneira que consigo, toscamente por vezes.

Porque o amor, mais do que ser falado ou explicado é para ser vivido.
E tento, dou o meu melhor, para que esteja em todos os gestos da nossa interação.

O coração de mãe não é de ferro, mas o seu amor é para sempre.

 

Photo by Andre Guerra on Unsplash

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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