o nascimento de uma mãe

O nascimento de uma mãe

O nascimento de uma mãe

No dia em que a minha filha nasceu, eu nasci outra vez. A mulher que eu era ficou na confusão do bloco de partos, esquecida entre as conversas dos médicos e a música que estava a tocar e nasceu outra mulher: a mãe.

Naquele dia, que recordo como um filme que vemos muitas vezes, nascemos as duas e temos vindo a crescer as duas. Sempre de mãos dadas. Eu dou-lhe a mão, enquanto lhe mostro os caminhos possíveis e ela aperta a minha mão com força e ajuda-me a ser a mãe que sou.

Nunca pensei que mãe iria ser, nem durante a gravidez, nem depois, não fiz planos, nem tinha certezas absolutas, não li livros, nem procurei teorias. A minha filha nasceu e eu, tal como ela, era um bebé recém-nascido a respirar pela primeira vez e tenho vindo a aprender a viver a maternidade por instinto e guiada pelo amor.

E que mãe sou eu?

Sou uma mãe imperfeita, que se assume imperfeita e que rejeita a culpa com todas as forças, faço sempre o melhor que consigo e às vezes o melhor que consigo é mesmo errar. E ajustar as velas e voltar a tentar.

Sou uma mãe corajosa e eu não era uma mulher corajosa. Transformei-me no preciso momento em que entrei na sala de partos e me senti estupidamente calma.

Sou uma mãe meio bipolar, uma mãe que grita e abraça e ralha e dá mimo e se enerva e que pede desculpa enquanto se volta a enervar.

A minha filha confia em mim cegamente para a proteger de todos os males, reais e imaginários, para a fazer sentir segura, confiante, para lhe explicar o mundo e os outros. E eu sou uma mãe leoa, galinha, ursa, loba e todos os bichos do planeta só para a proteger.

Sou a mãe a quem a minha filha abre buracos no peito quando me confidencia os segredos, as angústias, as questões existenciais e as dores de crescimento e com isso me faz crescer também.

A minha filha obriga-me a confrontar-me com a minha impaciência, com o meu cansaço, obriga-me a reconhecer os meus erros, quando falho e quando lhe exijo demais, mas aceita a minha imperfeição, amando-me. Aos olhos dela sou a melhor mãe do mundo e a mais bonita. A mãe a quem pede desculpa quando erra, a quem sussurra ao ouvido que a adora.

No dia em que a minha filha nasceu, fui abençoada com o milagre da vida e tenho vindo a ser abençoada com a beleza da presença dela nas nossas vidas, abençoada com o amor que transborda do seu pequeno coração.

Ainda hoje, cinco anos depois, olho para ela com o mesmo espanto com que a olhei pela primeira vez, acabada de sair da minha barriga, suja, inchada e cinzenta e eu a dizer-lhe:

– Olá, eu sou a tua mãe.

 

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