palpites na gravidez

Palpites na gravidez. Quando o mundo inteiro tem uma palavra a dar.

Palpites na gravidez. Quando o mundo inteiro tem uma palavra a dar.

Quando engravidamos e anunciamos ao mundo que vamos ser mães, o mundo segura-nos na mão e começa a dar-nos conselhos.

E por mundo quero dizer mundo, o mundo inteiro. Todas as pessoas do raio do mundo inteiro possuem informação privilegiada que por um qualquer acaso não chegou até nós. Mães. Mães desprovidas de cérebro, capacidade de pesquisar informação e de tomar decisões.

As mães dos grupos de mães, a vizinha do 3.º esquerdo e a colega de trabalho.  A enfermeira do centro de saúde, a nossa chefe, a mulher na sala de espera do consultório. As terapeutas do sono, as deusas da parentalidade positiva, a bloguer/influencer/instagramer/youtuber. (inspira, expira)

A avó que está com o neto no parque infantil, o taxista que nos leva a uma consulta.

A empregada de balcão do café onde tomamos o pequeno-almoço, a mulher na paragem do autocarro, a educadora da escola dos miúdos. A nossa cabeleireira, a empregada da caixa do supermercado, a nossa gestora de conta do banco. (inspira, expira)

O nosso pai, a nossa mãe, a nossa avó, a nossa sogra, a nossa tia, a tia da tia da prima, a prima em quarto grau que só vemos no Natal. A melhor amiga, a amiga que está a viver o estrangeiro, a amiga que acabou de ser mãe, a amiga que não tem filhos, a sogra da nossa amiga e a amiga da nossa amiga que conhecemos na festa de aniversário da filha da nossa amiga. (inspira, expira)

Qualquer uma das pessoas acima e todas as outras que se abeiram de uma mãe, que me levava a vida toda enumerá-las a todas, conseguem perceber rapidamente que merda é que estamos a fazer mal e mostrar-nos a luz. O caminho da sabedoria, os passos para a perfeição e enfiar-nos na cabeça a filha da mãe da culpa.

Rapidamente nos mostram que não escolhemos o melhor obstetra.

Que estamos a engordar demasiado. Que não estamos a usar o melhor creme para as estrias ou a tomar as vitaminas adequadas. Que a barriga está muito descaída e a criança deve estar quase a nascer e que para acelerar o parto basta-nos andar muito ou comer comida picante. Dizem-nos que não sabemos o que é parir porque implorámos por uma epidural. Que devíamos ter tido o nosso filho num hospital público e não no privado.

Elas sabem se devemos ou não receber visitas, se estamos a amamentar bem ou que não devíamos dar leite adaptado. Elas olham para os nossos filhos e pesam-nos com os olhos e juram que estão magrinhos. Aconselham-nos os melhores médicos que nunca são os nossos. Indicam-nos medicamentos, tratamentos e duvidam seriamente das razões porque os nossos filhos estão sempre doentes. Dizem-nos que damos demasiado colo, que os miúdos são mimados, que sabem mudar as fraldas melhor que nós e os rabos só ficam assados com a mãe porque a mãe não usa creme suficiente.

Sabem a idade exata em que os nossos filhos devem começar a comer a sopa e fuzilam-nos se lhes damos papas.

Sabem quando devem nascer os primeiros dentes e quando devem começar a palrar, a sorrir, a gatinhar, a andar, a falar corretamente português e inglês e a andar a cavalo. Ensinam-nos todas as teorias da parentalidade positiva, consciente, mindfulness e todas as tretas para nos conectarmos com os nossos filhos. Conseguem resolver qualquer birra sem esforço, impor rotinas para adormecer e não, com eles não há cá essa merda da privação do sono.

(inspira, expira, inspira, expira)

Quando somos mães dizem-nos que estão felizes por nós. Dão-nos os parabéns e juram que vamos ser as melhores mães. Mas no fundo desconfio que estão só felizes por ter mais uma mãe a quem lixar o juízo.

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