ter tempo para estar doente

Tempo para estar doente

Tempo para estar doente

O Pedro trouxe para casa um daqueles bicharocos de creche que são apenas um bocadinho incómodos nas crianças mas que metem os adultos a pensar na conversa que estão prestes a ter com S. Pedro. Esse bicharoco, que dava náuseas, dores de estômago e diarreia, atacou-me de forma certeira e eu, que nem me acho uma pessoa particularmente piegas, vi o caso mal parado e pensei que, afinal, ainda tinha que voltar ao hospital onde trabalho antes de terminar a licença de maternidade.

Hoje, passada uma semana sobre esses dias negros, já estou completamente recuperada mas decidi pegar neste tema para vos confessar que senti saudades de ter tempo para estar doente. E se isto assim à primeira vista pode até parecer esquisito, tenho a certeza que, quem é mãe, vai perceber onde quero chegar. É que outra das coisas que ninguém nos diz quando engravidamos é que o conceito de doença muda (muito!) depois da maternidade.

Sabem aqueles dias que passávamos no sofá, enroladas numa manta, numa letargia induzida pela febre?

E aqueles em que tínhamos dores de garganta e tínhamos tempo para beber um chá bem quente de limão com mel enquanto víamos um episódio da Anatomia de Grey? Pois, vão deixar de saber. Porque quando temos filhos pequenos esses dias são luxos de que não dispomos.

Porque a mãe não tem tempo para estar doente.

Quando as mães estão doentes os pais continuam a trabalhar e as crianças continuam a precisar de jantar, de tomar banho, de ir à terapia da fala e de levar lanche para o colégio.

Quando as mães estão doentes as crianças continuam a fazer chichi na fralda, a mamar de três em três horas e a querer ouvir as músicas do Panda enquanto treinam coreografias que metem taças, chaleiras, jipes e muito “style”.

E as mães agarram-se aos comprimidos, melhores amigos de ocasião, e lá se vão arrastando de pijama pela casa, arrumando aqui e ali, brincando como podem enquanto a sopa para o jantar cozinha na panela e a Xana Toc Toc canta não sei quê sobre um papagaio trapalhão. À noite, quando todos em casa dormirem, as mães hão-de beber um chá, de pé, encostadas à bancada da cozinha, e a cada gole quente lembrarão, cheias de nostalgia, os tempos em que tinham tempo para estar doentes.

 

Photo by BRUNO CERVERA on Unsplash

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