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Mulheres-objecto: Até quando?

Mulheres-Objecto: Até quando?

O sol tinha acabado de se pôr e a luz na rua não era muita. À minha frente caminhavam dois rapazes, com cerca de vinte e cinco anos e, no meio deles, uma rapariga que não teria mais de vinte e dois.

Um dos rapazes agarrava-a na cintura e ela tentava afastar a mão, o outro rapaz fazia o mesmo, mas mais acanhado. Demorei alguns segundos a observar a cena, para perceber se se tratava de uma brincadeira entre amigos mas percebi que não. Que os rapazes não conheciam a rapariga, mas estavam a tocar-lhe. A impor a sua presença. A meter-se com ela de uma forma íntima. Olhei em volta, com o coração acelerado, à procura de alguém que me pudesse ajudar. Não foi preciso, a rapariga soltou-se e deixou-os para trás. Isto aconteceu numa rua movimentada de Lisboa, ao final do dia. Havia pessoas à volta e mesmo assim os rapazes não se coibiram de agarrar a rapariga.

Este é certamente uma das muitas coisas que nunca irei compreender: como é que alguém se sente no direito de invadir o espaço de outro, de o tocar de forma íntima sem a menor autorização e – mais! – sem o mínimo consentimento.

Depois de seguir o meu caminho, pensando em quantas vezes estas situações não acabam assim, tão “facilmente”, recordei-me de um episódio que aconteceu quando estava a estudar no 12º ano. Uma das alunas da minha escola, que se vestia normalmente com saia um pouco curta e decotes algo pronunciados, foi seguida durante dias a fio por um homem. Este homem aprendeu a sua rotina, entrava e saía com ela no autocarro. Num desses dias, decidiu pegar-lhe no braço e fazê-la acompanhá-lo até um jardim ali próximo. Ela debateu-se, naturalmente. Estava cheia de medo e tentou fugir. Ele disse que queria que ela fosse dele. Ela negou. Ele atacou-a violentamente com uma arma branca, deixando-lhe uma cicatriz do pescoço até ao umbigo.   “Se não és minha não vais ser de mais ninguém”, disse. Isto aconteceu a uma rapariga de dezasseis anos, em Lisboa, em 2004. Na escola, toda a gente falava nisso. A opinião mais popular era a de que ela “estava a pedi-las, a vestir-se daquela maneira. Para a próxima já pensa duas vezes antes de sair de casa assim”. É claro que ela vai pensar, porque a feriram de uma forma inacreditável. E maior que a ferida física e emocional que ela terá de enfrentar para a sempre, o que sempre me custou foi o que as pessoas à volta pensavam. Como é que é possível? Como é que a vítima é sempre culpabilizada?

Quando é que se reconhece às mulheres (e aos homens, a todos os seres humanos) o direito de decidir sobre a sua vida? Sobre como se querem vestir? Como se querem pentear, maquilhar, que música ouvir? Até quando terá uma mulher de pensar duas vezes se arrisca usar aquela peça de roupa sabendo que vai fazer uma viagem de metro?

Quando compreenderão os homens, e tantas vezes outras mulheres, que o facto de a pele estar à vista não é uma provocação por si só? Não é falta de respeito e amor próprio? Que não é um convite a que se vá tocar, mexer?

Concordo que temos de ter cuidado, que nem todas as pessoas são equilibradas, educadas e por aí fora, mas custa-me que uma mulher seja olhada como um pedaço de carne. Que seja julgada e logo etiquetada, pela sua forma de vestir.

Que, mesmo não se vestindo de uma forma que muitos consideram como provocatória, seja vista como um ser que existe para deleite dos homens, para que eles possam olhar e dizer de sua justiça.

Quantas de nós não foram já alvos de comentários inapropriados?

Quantas de nós não aceleraram o passo quando tinham um grupo de rapazes atrás de si?

Quantas de nós não pensaram “se eu fosse um homem nada disto tinha acontecido”?

Quantas de nós não tiveram situações desagradáveis no local de trabalho? Com um namorado? No grupo de amigos?

Como mãe de uma menina, como irmã mais velha de uma adolescente que sai à noite, preocupo-me.

E, sejamos sinceros, ainda me preocupo comigo.

Porque nenhuma de nós está imune. Infelizmente.

É urgente educar para o respeito, é urgente educar para a igualdade, é urgente denunciar e punir quem não age correctamente.

É urgente sermos melhores e abrirmos caminho para que as novas gerações se respeitem.

Independentemente do género.

 

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