não é não

Não é mesmo não!

Este assunto tem sido muito falado, há movimentos e campanhas, passeatas e discursos de celebridades, mas na nossa vida do dia a dia há ainda demasiados momentos em que dizemos que “Sim” para poupar os sentimentos dos outros, quando tantas vezes o que queríamos dizer era um rotundo “não!”.

É uma questão de educação, muitas das vezes não queremos ser desagradáveis, e acumulamos uma série de situações que não pedimos mas com as quais temos de lidar.

Está na hora de mudar a mentalidade, está na hora de ensinar as nossas crianças a dizerem que não. A aprenderem a ouvir um não. Sobrevive-se em ambos os casos e há alturas que um não pode inclusivamente salvar vidas.

Há uns dias no metro testemunhei a seguinte situação: Ela, de cerca de 35 anos, entra acompanhada por ele, de cerca de 40. Vejo pela sua linguagem corporal que fica satisfeita quando vê que há apenas um lugar disponível. Pode sentar-se sozinha. Vêm a conversar desde a plataforma. Ela fica sentada no lugar exactamente à frente do qual estou de pé e ele está ao meu lado, também de pé. A conversa decorre mais ou menos assim:

Ele: Estavas mesmo com vontade de sentar.

Ela: Estou cansada. Acordo muito cedo e deito-me tarde, por causa das crianças.

Ele: Mas porquê? Se moras perto…

Ela: Já não moro ali.

Ele: Onde moras?

Ela hesita e olha para fora da janela e murmura:

Ela: Longe, noutro sítio.

Ele: Noutro sítio? (Sorri) Pois, mas onde?

Ela: Longe.

Ele: Mas longe é o quê, Porto?

Ela suspira e percebe que vai ter de dizer alguma coisa.

Ela: Perto de Loures.

Ele: Loures?

Ela: Perto…

Ele continua a fazer perguntas até que a viagem começa a chegar ao fim, para ele.

Ele: Tens aí o teu telemóvel? Tira e escreve o meu número e dá-me o teu.

Ela olha para fora da janela (novamente) e não responde.

Ele: A sério, dá-me o teu número.

Ela, sem olhar para ele, a mexer nervosamente no casaco:

Ela: Para a próxima…

Ele saltita de um pé para outro, incomodado com a resposta.

Ele: Dizes sempre que é para a próxima.

Ela: Não é nada…

Ele: Com esta vez já são seis.

Ela ri-se nervosamente.

Ele: A sério. Da última vez estavas com os miúdos e disseste “para a próxima, agora estou aqui com os miúdos”. E agora não há motivo para não me dares o teu número.

Ela continua a olhar para fora da janela.

Ele: Não me queres dar, é isso?

Silêncio.

Ele: Tudo bem, eu vou respeitar isso. (E pareceu honesto, aparentemente). Tenho todo o tempo do mundo.

Isto fez com que ela sorrisse levemente. Ele despede-se e sai na sua paragem, ela respira de alívio. Olha em volta porque foi uma conversa que provavelmente a deixou constrangida. Eu sorrio-lhe, como que dizendo “corajosa” e ela sorri de volta.

Fui o resto do caminho a pensar que é preciso ser corajosa sim e é uma vergonha que assim seja. Que provavelmente ela conseguiu sempre não lhe dar o número de telemóvel porque se encontram com outras pessoas à volta e ele não vai insistir demasiado, sob risco de alguém intervir na conversa. Mas e se um dia ela vai sozinha pela rua e o encontra? E se disser que não uma sétima vez e ele não estiver tão bem disposto?

A maior parte das mulheres que conheço teria dado o número errado ou, mesmo a contra gosto, o verdadeiro. E isso seria abrir a porta a uma série de situações que não queriam, porque deveriam ter dito “não quero dar-te o meu número”. Mas sejamos sinceras, quantas de nós conseguiriam fazê-lo a uma pessoa que não é um perfeito desconhecido, como parecia ser o caso?

Sentimo-nos acossadas e sem alternativa e acabamos por dar o número. E depois acabamos por responder à mensagem, por educação. E depois podem acontecer um sem número de combinações de coisas, boas ou más, dependendo do interlocutor.

Um homem a quem já foi negado cinco vezes o número de telemóvel, deveria ter recebido a mensagem. E não fazer como este indivíduo que recebe o “não” e diz que tem tempo, porque na sua cabeça vai haver uma altura em que ela vai dizer o sim. Não existe outra possibilidade no seu mundo machista, como a de uma mulher pura e simplesmente não estar interessada, nunca, e para sempre.

É difícil dizer não, mas temos de ensinar as nossas filhas a dizê-lo sem medos. Com educação e respeito, mas a assumirem as suas decisões. E temos de ensinar os nossos filhos que quando uma mulher diz que não, não está a dizer talvez, se continuares a mostrar-te interessado, numa perspetiva romântica de “luta lá por mim e mostra como sou importante”. Ainda que haja casos em que isso é verdade, em que há um flirt, uma espécie de jogo, lamentavelmente pagamos todas por isso.

E isto vale para uma relação amorosa já existente em que o “não” deve ser dito e aceite. Vale para quando o namorado quer pôr o telemóvel a gravar enquanto estão a ter relações, “vá lá, só desta vez, juro que não mostro a ninguém…”. Ou “dá-me a tua password do email e das redes sociais, até parece que não confias em mim”.

Como mãe de uma rapariga há várias questões que me preocupam para o seu futuro. Quer educá-la de forma a ser confiante e segura ao ponto de saber defender os seus pontos de vista. A proteger-se.

Vale também para rapazes, que ao longo do seu caminho, também se deparam com situações em que a sua vontade não é tida em conta ou desvalorizada. Mas, por enquanto, o número de mulheres afectadaa é ainda muito superior.

Aprendamos a respeitar o próximo e não deixemos nunca de ensinar o mesmo.

Por um mundo melhor.

Onde não significa não.

Sempre.

imagem@weheartit

 

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