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Não precisamos de passeios largos, precisamos de mais tempo com as nossas crianças!

A cidade de Lisboa está em obras. Para onde quer que olhemos há máquinas a trabalhar, ruas fechadas ao trânsito, carros obrigados a estacionar em cima do passeio.

Há o projecto de fazer circular menos carros pela cidade, dando mais espaço às pessoas. Os passeios estão mais largos (tão largos que a maior parte das ruas quase perdeu uma faixa de circulação) e a estrada mais estreita. Pretende-se que haja mais espaço para as pessoas disfrutarem dos seus dias, em lazer, seja com os miúdos a andarem de skate, patins ou bicicleta, seja na criação de novas esplanadas e locais de convívio.

Poderia perder-me na discussão se faz sentido começar por aí ou criar condições para as pessoas deixarem os carros nas garagens, tendo nós os nossos transportes públicos como sabemos, mas não é sobre isso que aqui escrevo hoje.

Escrevo sobre dar-se prioridade a criar uma cidade para as pessoas, tendo nós um país onde as pessoas têm pouco tempo livre na sua semana. Já para não falar no tempo disponível para estar com os filhos. Estamos na cauda da europa no que diz respeito à produtividade, mesmo sendo dos que mais horas trabalhamos (porque, como é e deveria ser óbvio para todos mais horas não significa mais trabalho realizado).

Não precisamos de passeios largos, precisamos de mais tempo com as nossas crianças!

A maior parte dos pais consegue chegar perto dos filhos por volta das 19h00. Depois é chegar a casa, tratar dos trabalhos de casa (se ainda não tiverem sido feitos), tomar banho, jantar e deitar. Sempre me deu um aperto no coração esta lufa lufa da agitação dos “crescidos” em oposição às crianças. Temos crianças para pagarmos aos outros para que tomem conta delas e essa é a realidade de tantas famílias que juro que me custa mesmo muito. Há uma grande percentagem de avós que faz o papel de pais: vai buscar à escola, dá lanche, acompanha, brinca, dá banho e jantar e às vezes até deita os miúdos. Sei que para muitos pais não há uma alternativa, mas sou apologista da redução da carga horária de trabalho para que as famílias se possam ver crescer.

Porque adultos realizados pessoalmente terão um reflexo dessa felicidade, harmonia e equilíbrio no seu desempenho profissional. Não serão todos, mas os números sofreriam uma grande melhoria se assim fosse. Sou eu que o digo, não é nenhum estudo encomendado.

Claro que para todas as regras haverá excepções, tal como há pais que nas suas férias optam por deixar os filhos na escola, aqueles que saem a horas mais interessantes e escolhem não ir directamente ter com os filhos, aquelas mães que usufruem do horário reduzido por estarem a amamentar mas só vêem os filhos duas horas depois. Não critico ninguém, cada um saberá o que é melhor para si, o que funciona melhor, mas todos deveriam poder sair ainda de dia dos seus trabalhos.

Ir buscar os filhos à escola sem ter de pagar uma taxa adicional por causa do prolongamento. E isso ajudaria também as pessoas que tomam conta dos nossos filhos, e que tantas vezes deixam os seus postos de trabalho depois das 19h30, a chegarem elas mesmas mais cedo a casa. Para perto dos seus filhos. De que outros tomam conta.

É perverso tudo isto e talvez eu seja uma idealista, mas acredito que caminhamos para um futuro mais justo e igualitário, em que as pessoas não são obrigadas a permanecer nos seus postos de trabalho depois de terminarem as suas tarefas apenas para picarem o ponto.

As nossas crianças merecem o melhor de nós.

E o melhor de nós acontece quando sentimos que somos valorizados e respeitados, e para isso também tem influência o que fazemos.

Se chegarmos menos cansados a casa seremos mais pacientes, mais disponíveis. Seremos, quem sabe, melhores pais.

Este é o meu verdadeiro desejo para o próximo semestre de 2017: que os pais possam passar mais tempo de qualidade com os seus filhos sem sofrerem consequências a nível profissional.

Tempo de amor.

De brincadeiras.

De estar perto, só porque podemos.

De os observarmos ao longe e descobrirmos neles coisas que nos foram escapando.

De os ouvirmos sem ser a realizar outras tarefas pelo meio.

Tempo de sermos família.

imagem@weheartit

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