O menino que era uma menina

O menino que era uma menina

O menino que era uma menina

O menino que era uma menina

Muito se tem falado, muitíssimo além fronteiras, sobre a questão de género. Sobre crianças que estão em transição desde muito novas com o acompanhamento dos pais e outras que só já em adultas o fizeram.

É um assunto delicado e importante.

Um assunto tão sério que entra para o topo da lista do: e se fosse comigo? Sinceramente não tenho respostas. Sei que se acontecer connosco tudo faremos para ouvir, para compreender, para orientar, para ajudar. Para aceitar. Mas falar de fora é fácil. E aqui fica uma palavra para todos os pais que lidam com este e com outros desafios diariamente.

Porque amar um filho é ter de estar pronto para o que ele traz consigo quando chega a este mundo. Todas as suas características, todas as suas decisões. Quer concordemos ou não. Quer esteja ao nosso alcance ajudar ou não. Quer possamos compreender ou não.

E falo deste assunto porque há uns dias estavam no jardim dois irmãos a brincar. Meteram-se com a minha filha e um deles, o mais velho, fartou-se de conversar. Está naquela idade engraçada em que todas as interacções com os adultos são uma oportunidade de mostrar o que sabem, o que aprenderam, os temas que dominam. E foi o que aconteceu: a Mariana no baloiço com o pai a dar balanço e este miúdo de volta deles a conversar. Sobre basquete, sobre futsal, sobre as competições, sobre como era melhor que o irmão mais novo em todas as modalidades, sobre como conseguia finalmente fazer alguns passes que o pai lhe tinha ensinado. Sobre clubes e por aí fora. Estiveram quase uma hora na conversa quando o irmão mais novo corrige e diz: ela é uma menina, eu é que sou um rapaz.

Para defesa do pai, que ficou como os desenhos animados japoneses, com uma gota gigante junto à testa, devo dizer que o menino, que afinal era menina estava com a farda da escola. E essa farda era pullover e calças. E o cabelo estava cortado curto. Depois desta correcção conseguimos ver traços femininos, é verdade, mas apenas porque estamos a ver com atenção.

Pode ter-se tratado apenas de uma menina Maria rapaz, mas pelos momentos em que estive a observar sem interagir directamente diria que não é o caso. Pode não estar em transição, mas acredito que irá acabar por fazê-lo. E não é por os assuntos falados serem tipicamente associados aos rapazes (sempre me deixou bastante irritada a tendência para dizer que os meninos só usam azul, não brincam com bonecas e gostam de futebol; que as meninas têm de se sentar direitas, não lhes fica bem fazer desportos masculinos e brincar com carros. Sou totalmente contra o estereótipo, acho que não é nenhuma destas coisas que faz um rapaz ser mais ou menos masculino e o mesmo acontece com uma rapariga). Ainda assim, sei que as raparigas e os rapazes são diferentes. Nem melhores nem piores, são diferentes. Os seus códigos genéticos fazem com que se comportem de maneiras diferentes (quantas vezes, e impensadamente, disse que a minha filha é um rapazinho autêntico por ser aventureira, não ter medo das brincadeiras mais perigosas, etc). Muito é imposto socialmente, mas um rapaz e uma rapariga são diferentes e não apenas no que diz respeito ao seu aparelho sexual e reprodutor.

E é por isso que é tão complexo lidar com uma criança que sente que nasceu no corpo errado. Que se sente infeliz com o invólucro com que é obrigado a viver, com as expectativas que são criadas para si.

Parte-me o coração saber que há milhares de pessoas que cresceram a sentir-se erradas, sozinhas, incompreendidas, em depressão profunda. Que foram julgadas, que tiveram de se esconder. Que viram os seus gestos serem confundidos com orientação sexual quando não é disso que se trata. E se se tratasse não haveria problema nenhum. Ou não deveria haver.

Nos dias de hoje nós, os pais, temos mais obrigações para com os nossos filhos do que os pais de antigamente (porque muito do que hoje se discute era antes tabu, ainda que existisse).

Devemos-lhes respeito.

Afecto.

Compreensão.

Amor.

Tempo.

Respeito (sim, outra vez).

E isso nem sempre é fácil, mas sou adepta convicta da comunicação.

Pais e filhos que comunicam serão sempre mais felizes. Mesmo que para lá chegarem tenham de percorrer um longo caminho. Porque todas as aprendizagens contam.

E devemos agradecer todas elas.

 

 Desafio de Igualdade

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