zanga

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Ontem zangámo-nos a sério

Querida filha:

Ontem zangámo-nos a sério.

Mantive a calma, coisa que nem sempre consigo fazer quando começas a espernear e a gritar à saída da escola, incapaz de ouvires o que te estou a dizer. Tentei acalmar-te, tentei fazer-te ouvir a razão, tentei distrair-te, tentei até ignorar os gritos que davas na esperança que chegando a casa te acalmasses.

Custa muito, deixa-me que te diga, que algumas vezes o simples facto de eu estar ali, a falar contigo, não seja suficiente para te acalmares. Sei que estavas cansada (apesar da boa sesta), porque brincaste muito, e sei que a certa altura entras numa espécie de transe em que não ouves nada, a não ser o que o teu cérebro te grita e que mimetizas reproduzindo esses gritos terríveis que não te assentam nada bem.

Depois de resolvermos o assunto, já em casa e depois de me ter zangado muito a sério, sentei-me no sofá. Sentei-te ao meu colo. Ficaste encostadinha a mim, a ouvir o meu coração, em silêncio, enquanto te limpava as lágrimas.

Perguntei-te se querias ir brincar com as tuas coisas ou ficar ali e quiseste ficar. Ao meu colo. E assim ficámos mais de meia hora, num silêncio em que as tuas lágrimas já limpas puxavam as minhas e eu me esforçava para que não caíssem.

Há dias em que nada resulta, em que me esforço ao máximo por não atribuir culpas – nem a ti, nem a mim – em que só quero que se vire a página para conversarmos. E conversámos, e ficou tudo bem.

Ontem zanguei-me a sério contigo porque sabes que as birras não funcionam e, mesmo assim, de vez em quando insistes em tentar. Porque sabes que não negoceio, que quando já disse que uma coisa tem de ser feita de uma maneira, ela vai ser feita assim – porque, acredita, se te digo que tens de vestir o casaco quando estão oito graus e o sol começa a esconder-se, então é porque é o melhor para ti. Mesmo que não fosse, não está aberto a discussão (já sabes responder quando te pergunto: “Mariana, quem é que manda?”, dizes “o pai e a mãe”), quanto muito está aberto a conversa – e noutras alturas, já começaste a perceber que se conversares e te explicares eu oiço-te. Oiço-te sempre. Só tens dois anos e meio e nem sempre consegues expressar-te. E os gritos custam, mas sei que no fundo não gostas mais deles do que eu. Ninguém prefere estar desconfortável, completamente sem chão e sem controlar o que sente.

Por isso, prometo-te mais uma vez que vou estar sempre aqui. Mesmo que me afastes e mandes embora, que me grites porque não estou a fazer o que gostavas. Irei fazer-te chegar à razão, demore o tempo que demorar. E vai custar não te ter calma sempre, mas a vida já me ensinou há muito tempo que nem tudo é como queremos nem quando queremos. Um dia chegarás lá.

Ontem zangámo-nos a sério, mas fizemos as pazes. Ajudaste-me a fazer “arroz amarelo” para o teu jantar, misturaste o açafrão e sorriste quando viste o branco dar lugar a uma nova cor. Ficaste contente quando acertei nas perguntas que fizeste na hora da história (“boa, mãe!”). Quiseste ajudar-me a lavar os dentes enquanto te ajudava a lavar os teus.

Hoje vai ser um dia bom.

E se não for, vamos encontrar novas estratégias para comunicarmos cada vez melhor.

Porque não gosto de me zangar.

Porque prefiro o teu sorriso e as tuas gargalhadas, os teus dedinhos a apontar o gafanhoto que invariavelmente encontramos no caminho.

Vamos tentar ser melhores? As duas?

Vamos!

E vamos conseguir!

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome