Os pais não tiram férias

Os pais não tiram férias

Quando penso em férias em família, a imagem que me passa pela cabeça envolve adultos perfeitamente descontraídos e crianças impecavelmente limpas, penteadas e cheirosas.

Não sei onde vou buscar essa ideia, mas claramente essa família não é a minha.

Quando vamos de férias só consigo preparar a mala no dia anterior e esqueço-me, quase sempre, de peças importantes que tento airosamente substituir por outras mas que resulta, a maioria das vezes, em combinações catastróficas (como o vestido preto de festa que calcei com chinelos de praia amarelos!).

As minhas filhas são sempre as mais despenteadas, e só estão sem nódoas na primeira meia hora do dia. Têm uma propensão incrível para se sujarem todas cada vez que comem um gelado, de tal forma que se consegue adivinhar o sabor que comeram só por mera observação à camisola.

São sempre as mais barulhentas também. Suportamos olhares desaprovadores, por vezes furiosos, quando o nosso alvoroço entra pela porta de um qualquer restaurante.

Uma olhadela de lado, um abanar de cabeça, uma expressão de aflição.

No entanto, as minhas filhas são também as miúdas que se esquecem da televisão quando estão de férias. Do tronco de uma árvore fazem um parque infantil e se na rua há música, elas param para dançar. Em Itália pedem “gelati” e em Marrocos andam de camelo.

Nas férias as minhas filhas correram livres sempre que possível. Dançaram com os artistas de rua e até compraram um quadro ao senhor da banca na esquina. Molharam os pés no lago, brincaram na areia preta, magoaram os joelhos em quedas imprevistas, caíram e voltaram a cair.

Aprenderam geografia, culinária, história, arte e uma língua diferente.

Mas nós… Os pais não tiram férias

Quanto a nós, pais e mães, sedentos de férias…. Pode ser que venha o dia em que o descanso volte a ser descansado. Pode ser que venha o dia em que possamos andar de férias perfeitamente descontraídos como a imagem que não me sai da cabeça.

Por enquanto trocamos o ginásio pela musculação livre (aka cavalitas), o pequeno-almoço por bolas de Berlim, o almoço pela lancheira da praia, a casa pelo quarto de hotel.

Vamos de férias mas não estamos de férias. Pais não tiram férias, fazem intervalos do trabalho.

Não cochilamos na praia, não acordamos tarde nem saímos à noite.

Não temos direito a silêncio, a intervalos para descansar só um bocadinho. A refeições calmas ou fora de horas ou à sessão da meia-noite no cinema.

E apesar de tudo tenho a estranha sensação que há de chegar o dia em que vou sentir saudades destas nossas não- férias e desejar nostálgicamente não ter tempo para ter tempo.

 

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