Perturbação de regresso

Perturbação do Regresso | Como se embala uma família

Perturbação do Regresso | Como se embala uma família

Eu não estou igual, não sou bem a mesma”. Quando digo isto, há quem me perceba de imediato…

Em Portugal não é um tema muito falado, mas no Brasil já é assunto. O nome pode variar desde perturbação do regresso, síndrome de retorno, jet lag emocional, stress de aculturação de retorno, e até ferida do retorno. É um vazio inexplicável, sem causas aparentes, mas que afecta muitos imigrantes. E estranhamente nós somos um País de gente com alma lusa e os dois pés no Mundo.

Quando partimos, sabemos os cuidados que devemos ter.

Estudamos o País, as pessoas, fazemos perguntas, questionamos, investigamos. Inquieta-nos o que nos espera e os cuidados que deveremos ter quando chegamos ao outro país. Tentamos perceber a cultura. Nas primeiras semanas fazemos questão de sair de casa e conhecer a cidade, de nos sentirmos cidadãos da nova morada. Passamos a ouvir a música local e tentamos aprender os termos de rua para não nos sentirmos tão deslocados. No dia da partida é um nó gigantesco que fazemos com a nossa capa de super aventureiros e despedimo-nos capazes de tomar o mundo. Na mala vai sempre, seja a primeira, seja qualquer viagem, um pouco do nosso País connosco.

Quando planeamos o regresso ao nosso País de origem nem nos passa pela cabeça fazer qualquer tipo de pesquisa. E a alegria e entusiamo do regresso estranhamente e rapidamente se transformam nuns fenómenos que podem levar desde à sensação de falta de identidade até depressão. Somos invadidos por sentimentos tão díspares como a solidão, o tédio, o arrependimento, a deceção e a não pertença. Há quem fale num período de dois anos para que nos consigamos readaptar.

Os amigos começam por reclamar da nossa constante insatisfação ou do facto de falarmos tanto do País onde estivemos. Mas muitas das vezes as pessoas esquecem-se que é difícil falarmos de nós sem nos colocarmos num local, e a verdade é que o local onde tudo nos aconteceu nos últimos anos era um país diferente, onde vivemos felizes e criamos raízes.

Com a distância, perdemos não só o pé no solo do nosso país, mas também a cumplicidade e espontaneidade conquistada desde o dia que nascemos. E estranhamos… temos uma vontade inexplicável de fazer malas e ir à nossa procura. Sentimo-nos perdidos. Pensamos que voltamos para um lugar que conhecemos desde sempre, familiar, o nosso ninho, mas no fim concluímos que afinal pertencemos ao Mundo e que este canto à beira mar plantado é demasiado pequeno…

Quais as principais causas desta dificuldade de readaptação?

  • Sensação que se perdeu o barco: quando se volta, muita coisa aconteceu enquanto estivemos fora. Perdemos as novidades, as pessoas foram vivendo, foram conhecendo outras pessoas. Sobreviveram sem a nossa presença, assim como nós sobrevivemos sem a presença delas.
  • Falta de novidade: Quando estamos fora tudo é novidade, tudo é novo, estamos constantemente a aprender e a colocarmo-nos à prova. Aprendemos que somos óptimos a desenrascarmo-nos, somos aventureiros e corajosos.
  • Amigos: A falta que as pessoas nos fazem. Quando se vive longe, como não há família, passamos a contar mais uns com os outros e as relações são realmente profundas. Relações essas que no País de origem, muitas das vezes, nunca existiriam. São laços de amizade muito fortes e a sensação de que se pode nunca mais voltar a ver estas pessoas, ou que possam ter um papel menos relevante na nossa vida, aumentam a sensação de vazio do retorno, e consequentemente é uma das causas da depressão.
  • Saudades das viagens: Quando estamos longe, aproveitamos a desculpa de estar afastado para viajar. Conhecer o País para onde nos mudámos e os vizinhos. Juntando o útil ao agradável. Quando voltamos a saudade das viagens e a vontade de conhecer o mundo só aumentam.
  • A sensação de que “eu mudei”:  este sentimento é unânime: todas as pessoas voltam diferentes. Adquire-se experiências, independência, capacidade de desenrasque, vivência num novo idioma, uma infinitude de ganhos. Enquanto a pessoa criou uma bagagem cultural diferente e colecionou experiências, a sua família e amigos, mesmo que muito felizes por si, continuaram na rotina de sempre.
  • “Voltei a ser comum”: quando moramos fora somos novidade. As pessoas têm saudades nossas, querem ouvir as nossas histórias. Quando regressamos de férias todos nos querem ver. Quando passamos a viver novamente no País, vemos as pessoas com a mesma regularidade de quando estávamos fora e não mais. E as nossas histórias deixam de ser novidade e passam a ser aborrecidas

Como ultrapassar e lidar com a Perturbação do Regresso:

  • ver filmes ou ler livros, que o transporte para o local saudoso, para que possa recordar e matar saudades.
  • partilhar as suas experiências. Mas torne as suas lembranças em algo positivo, agradável e nunca sofrido. Ninguém tem pachorra para ouvi-lo a queixar-se constantemente (nem você mesmo.)
  • tornar-se turista no seu País. Parta à descoberta da sua cidade, parta à descoberta do seu País. Encontre as inúmeras surpresas agradáveis que este canto que está na moda tem para lhe contar.
  • não perder o contacto com as amizades feitas além fronteiras. Não deixe os laços de amizade esmorecerem por falta de convívio. Só estas pessoas viveram o mesmo que você. Só estas pessoas serão capazes de perceber alguns dos seus sentimentos.
  • dar tempo ao tempo. Pode demorar, mas todos acabamos por nos readaptar e por nos voltarmos a sentir em casa.
  • continuar a viajar. Uma das melhores receitas é viajar. Procure investir o seu tempo e dinheiro na procura de destinos para viajar. Nunca deixe de viajar, de crescer, de aprender, de se transformar.

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