Porque é que as mães dormem tão pouco

Porque é que as mães dormem tão pouco

Eram 8h da noite de sábado e a minha mulher, a Mel, queixava-se de como estava cansada por ter dormido pouco na noite anterior e eu perguntei-lhe a que horas tinha  ido para a cama na véspera.

Nós temos 3 filhos mas eles dormiram a noite completa. Até porque lá em casa dividimos as noites e por isso se tivessem acordado eu teria sabido. Aliás, o Aspen, o nosso filho mais novo só acordou às 7h30, ou seja, cerca de hora e meia mais tarde do que o habitual.

Eu não consigo perceber porque é que ela não dormiu o suficiente, a não ser que se tenha deitado tarde outra vez, que foi o que provavelmente aconteceu.

“Por volta da 1h30” – respondeu-me. Estava com os olhos vermelhos e o cansaço estampado na cara.

Porque é que ficas acordada até tão tarde?” – perguntei-lhe: “Porque é que não vens deitar-te ao mesmo tempo que eu?”

Nessa noite eu fui para a cama por volta das 22h e ao sair da sala ela disse: “Ate já, vou daqui a 5 minutos. ” – Mas não foi.

Fiz-lhe a minha cara de “Temos pena”, até porque não é a primeira vez que a Mel se deita tardíssimo sem necessidade ou razão nenhuma.

Desde que temos filhos, eu comecei a deitar-me mais cedo. Aliás, dormir tornou-se na minha prioridade nº 1. Entre as noites a pé por causa dos miúdos e aguentar dois empregos durante o dia, sempre que tenho uma oportunidade para fechar os olhos não penso duas vezes. Mas a Mel não. A Mel não é assim!

Estamos casados há cerca de 12 anos, e temos filhos há nove. Desde os dois anos do nosso filho mais velho que a Mel se deita, invariavelmente, tarde. Ao longo dos anos chegamos a um ponto que nunca vamos para a cama ao mesmo tempo. Além de que tenho saudades de adormecermos juntos, o que mais me incomoda é o facto de se deitar tardíssimo a fazer sabe Deus o quê, e no dia a seguir queixa-se que está cansada.

Faz-me lembrar os adolescentes que estão diariamente a queimar a vela nas duas extremidades, sem razão aparente.

Estamos os dois a viver com uma dose diária de sono muito baixa. Acordamos os dois à noite para tratar dos miúdos. Eu trabalho durante o dia e a Mel, até há pouco tempo ainda estava a fazer um Doutoramento. Acho que nessa altura eu achava mais normal, talvez estivesse no computador a pesquisar ou a escrever a tese.  Mas hoje em dia, já nem se justifica.

A Mel não me respondeu à minha pergunta e eu assumi que nem ela sabia o porquê de ficar a pé até tão tarde. Ela ainda estava de pijama com o seu rabo-de-cavalo mal-amanhado, e os miúdos estavam a tomar o pequeno-almoço.

A Mel sentou-se no sofá, cruzou as pernas e ficou em silêncio. Sentei-me ao lado dela porque queria ver se chegávamos a uma conclusão para acabar com este cansaço.

Eu passo o dia inteiro com os miúdos. O dia inteiro. E quando eles vão dormir, eu estou contigo… o que é óptimo, mas…” Ficou em silêncio. – “Eu preciso de tempo para mim!”

Deitei-me para trás no sofá e fiquei a pensar no que ela disse. Para mim não faz muito sentido. Eu nunca precisei de tempo para mim. Preciso de dormir mas isso é outra coisa.

“O que é que queres dizer, com tempo para ti?” – Perguntei-lhe

A Mel suspirou. Não percebi se estava irritada ou se lhe seria difícil de explicar.

Eu quero sentar-me no sofá sozinha sem ter ninguém ao colo, a chorar ou a agarrar-me. Eu quero que não me toquem durante algum tempo. Há dias, quando as crianças estão sempre em cima de mim a agarrar-me, que sinto uma sobrecarga sensorial. Quero enfiar-me numa bolha, numa redoma. E sinto falta de me sentar e ver um programa de Tv sem ser infantil ou notícias. Quero aproveitar o tempo que a casa está em silêncio para poder ler um livro em silêncio. Eu só quero um tempo para ser…” – Levantou as sobrancelhas e disse uma coisa que realmente me fez pensar.

“Eu! À noite é o único momento que tenho para me sentir “eu”. “Eu” antes de ser mãe.”

Ao longo destes anos todos nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ser questão. Eu assumi que a Mel adorava ser mãe. Não quer dizer que nunca tenhamos falado sobre os desafios da maternidade e como a parentalidade pode ser avassaladora. Mas eu não fazia ideia de que a minha mulher precisava de tempo para se sentir uma não-mãe.

Não gostas de ser mãe” – Perguntei a medo. Nem sabia se estava nervoso porque não queria que nada mudasse – a Mel é uma mãe espectacular! –  ou se era por ter descoberto que havia uma parte da minha mulher que eu, claramente, não conhecia.

A Mel riu-se. “Eu adoro os miúdos, mas isto não tem nada a ver com gostar ou não de ser mãe. Tem apenas a ver com querer estar sozinha. Às vezes nem sequer a ti te quero por perto. Não significa que te ame menos. Nem aos miúdos. Mas eu preciso de me sentir “eu”. Não ter sempre alguém a pedir-me coisas. Não ter sempre alguém a discutir por isto ou aquilo. Não ter sempre alguém à espera e a precisar da minha atenção. Neste momento, para mim, isso é mais importante do que dormir. Faz algum sentido?”

“Nem por isso” – respondi. “Quer dizer, eu não consigo entender porque eu não sinto a mesma necessidade. Mas respeito este teu sentimento”

Abraçamo-nos e ficamos ali um bocado sem falar.

“Então, vais ficar outra vez acordada até tarde esta noite?”

Ela acenou com a cabeça.

Ok. Eu vou certificar-me de que tens esse teu tempo”

 

Por Clint Edwards, Para Scary Mommy

 

Autorizado, traduzido e adaptado por Up To Kids®

3 thoughts on “Porque é que as mães dormem tão pouco
  1. Percebo tão bem!! É mesmo isso! Também tenho o “meu momento” ao fim da noite, quando tudo pára, a casa silencia-se e só se ouve os cães a ladrar lá bem ao fundo… Se a isso juntarmos um luar refletido nas águas do mar fica perfeito!! Muitas vezes também não sou compreendida. Mas é tão bom!!

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