prioritario

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Prioritário é olhar em volta

Prioritário é olhar em volta

Enquanto grávida:

– Fui olhada de lado de todas as vezes em que já bastante grávida, na caixa prioritária do supermercado, a funcionária me deu a vez – mesmo sem ter exigido o meu direito de passar à frente e me ter mantido à espera, atrás de pessoas que de prioritário tinham apenas a pressa.

– Vi mulheres que abusaram do seu direito de prioridade dizendo que estavam grávidas (quem sabe se estavam mesmo…) para passarem à frente. Não tinham barriga, não estavam carregadas, simplesmente acharam que se estavam grávidas então não tinham de esperar.

– Ouvi a funcionária da farmácia perguntar se estava grávida (a barriga ainda induzia em erro na altura) e rapidamente uma outra senhora, de alguma idade, insurgir-se dizendona minha altura gravidez não era doença”.

– As pessoas nos transportes sentam-se nos lugares que são destinados a quem tem prioridade. E não levantam o olhar. Não querem saber. Fingem não ver. Indignam-se se por acaso alguém pede, por nós, que nos cedam o lugar.

 

Enquanto mãe:

– Foram mais as vezes (numa proporção de 90% para 10%) em que subi com o carrinho do bebé em braços nas escadas do metro depois de terem passado por mim homens de barba rija, estudante universitários no auge na força física e tantas outras pessoas que podiam ter ao menos perguntado se precisava de uma “mãozinha”.

[Numa dessas vezes foi uma senhora, tão grávida que receei que tivesse o bebé ali, quem me ofereceu ajuda. (Como é natural declinei).]

– Em todos as superfícies que têm elevadores – e espantem-se, todos têm uma placa a pedir a cedência de prioridade a quem não se pode deslocar pelas escadas – ou estes não funcionam de todo ou simplesmente é impossível apanhar o primeiro elevador porque quem está à espera – e 99% das pessoas escolhe, por mero comodismo, não utilizar as escadas – não só não dá passagem como finge que não vê o monstro que é um carrinho. Com um bebé lá dentro. Que comunica e se faz ouvir.

– Pedi prioridade para uma senhora grávida que estava em pé há bastante tempo na secção do talho de um supermercado (de renome, devo acrescentar) e o funcionário disse-me que se quisesse lhe desse a minha vez, mas que não a passaria à frente de ninguém. Troquei a minha senha com ela. Estava com os pés inchados e visivelmente envergonhada, não tinha pedido a prioridade e estava com uma criança pequena ao pé dela. Fiquei com vergonha alheia pela resposta que recebi.

– Ouvi pessoas discutirem a diferença da prioridade para pessoas acompanhantes de crianças de colo ou com crianças ao colo, achando que umas seriam mais merecedoras que outras.

– Na véspera de Natal fui a correr ao supermercado e levei a minha bebé, tinha-me esquecido de comprar alguma coisa para a noite e esperei na fila de atendimento prioritário. Volto a frisar: esperei. A funcionária da caixa ao lado, ao ver-me com um bebé de, na altura, quatro meses, pediu à colega que me passasse à frente. Esta recusou-se porque “o bebé não está a chorar”. E a senhora à minha frente acrescentou “se queria passar dizia, era preciso fazerem circo disto por si?. Fiquei sentida. Não tinha pedido nada mas senti como um gesto de boa vontade o da funcionária que quis ajudar. E de mau coração o da que se recusou. Numa véspera de Natal. Mal sabia ela que eu recusaria…

Acredito que este direito, como todos os outros, traz uma série de deveres associados. O do respeito, o da verdade, o da necessidade, o do bom senso.

Sei que se estou grávida de sete semanas, de perfeita saúde e vitalidade, não tenho necessidade de passar à frente de ninguém. Mas sei que se estou de pé com um barrigão, se me derem o lugar acho que o mereço. Se a minha filha estiver calma não vou pedir para passar à frente. Mas se ela começar a ficar inquieta irei fazê-lo porque só estou ali com ela porque preciso mesmo e não acho correcto incomodar ninguém, nem deixar a minha filha ficar mais irritadiça por causa dos olhares alheios.

Com esta longa lista quis apenas alertar para um dos, ainda, grandes problemas da nossa sociedade. Gostamos dos direitos, mas só quando nos tocam a nós. Quando temos de fazer alguma coisa pelos outros, a primeira tendência é reclamar. Isso entristece-me mas, como mãe, tudo farei para que a minha filha tenha em mim um exemplo do que fazer numa situação em que alguém precisa. Porque eu, para além de ter estado grávida e de ser mãe, sou um ser humano. E às vezes esquecemo-nos de nos olhar uns aos outros como tal.

Que a máxima “fazer aos outros o que gostava que me fizessem a mim” reine mais vezes.

É só ter bom senso.

(E bom coração, provavelmente…)

imagem@weheartit

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