Querida Sílvia Alberto

Querida Sílvia Alberto. Uma carta aberta a uma nova mãe.

Querida Silvia,

Não nos conhecemos, não temos profissões semelhantes nem frequentamos os mesmo locais, contudo temos algo em comum – somos mães.

Recentemente foi lançada uma notícia em que a Sílvia assumia que “ser mãe é pior do que pensava”. Rapidamente surgiram críticas ao seu desabafo que diziam ser descabido e que só poderia vir de alguém que claramente não estava pronta para ser mãe. Que certamente não amaria o seu filho pois caso contrário não diria tal coisa. E ainda que deveria guardar esses comentários para o seu círculo de amigos e família.

Sabe Sílvia, o confronto que vive entre as expectativas que tinha da maternidade e o que realmente é provavelmente foi criado por outras mulheres-mães que, na tentativa de fugirem a críticas, sentiram necessidade de passar uma imagem cor-de-rosa do que são os primeiros tempos de vida de um bebé e de uma mãe que se está a construir.

Socialmente, como teve oportunidade de constatar, a maior parte das pessoas não distingue (ou finge não conseguir distinguir) o amor do cansaço. Uma mãe pode passar por um cansaço extremo, mas o amor que tem pelos filhos permanece intocável. Contudo, a sociedade distorce o discurso dessa mãe, leva-a a acreditar que uma “boa mãe” não se cansa, não tem pensamentos menos positivos devido a esse cansaço, não duvida de si nem da decisão que tomou em ser mãe, que não pode sentir que afinal não estava preparada. Acredite, todas passamos por lá, apenas temos pouco espaço para o assumir.

Sinto verdadeiramente que muitas das mães que a criticaram estavam apenas a repetir comportamentos.

Provavelmente choram no silêncio da noite, às escondidas, saturaras do trabalho que dá serem mães, não dos seus filhos, mas socialmente para manterem essa máscara precisam de estar na fila da frente no que toca às acusações de “quem assume o seu cansaço não é boa mãe”.

Houve também quem dissesse que a Sílvia certamente não estava pronta para ser mãe.

Sou psicóloga e especializei-me em trabalhar com mães, leio muitos artigos sobre o assunto, e gostava mesmo de conhecer uma mãe que se sentisse realmente preparada para ser mãe assim que o é. Sem filhos todas sentimos estar preparadas para o que aí vem. Recebemos avisos, alguns até bastante pessimistas, mas a realidade ainda assim supera tudo. Ser mãe é mais doloroso, mais exigente, esgotante do que aquilo que alguma vez nos explicaram. Nos casos em que fingem que esse lado não existe, muito menos preparadas iremos estar.

Posto isto, obrigada, querida Sílvia!

O seu discurso permitiu que muitas futuras/recém-mães compreendam que talvez a maternidade seja mais desafiante do que a sociedade pinta. Que podem assumir o seu cansaço sem que isso signifique que estão fartas dos filhos e que, talvez mais importante do que isso, é normal o que sentem, que não são nenhuns aliens por perceberem que afinal não estavam preparadas (ninguém está!) e isso irá dar-lhes a segurança de que precisam para aceitar a maternidade no seu todo.

 

Imagem@flash

 

Mestre em Psicoterapia Cognitiva-Comportamental, Lisboa

A entrada no mundo da maternidade rapidamente se revelou menos “purpurino-brilhante” do que havia imaginado. Poderei ser uma mãe que se sente completa, com disponibilidade para a sua prol, se não cuidar de mim enquanto mulher? Poderei ser uma mulher feliz se não me sentir uma mãe livre?

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