Recuperar depois do caos Um episódio traumático, seja ele de que natureza for, pode ter um tal impacto numa criança que as impressões fortes daí resultantes podem cristalizar-se na sua constituição física e psíquica.

Recuperar depois do caos

Recuperar depois do caos

Um episódio traumático, seja ele de que natureza for, pode ter um tal impacto numa criança que as impressões fortes daí resultantes podem cristalizar-se na sua constituição física e psíquica. Altera-se o bom desenvolvimento de um indivíduo, sendo que quanto mais nova for a criança, maior o impacto.

Um trauma significa, etimologicamente, uma ferida. Uma ferida psicológica. Os distúrbios consequentes podem ser do foro psíquico e/ou físico (sistemas metabólico, rítmico, respiratório, motor, nervoso), interferindo com o comportamento e aprendizagem.

Um trauma processa-se, por norma, em 4 fases:

Situação traumática » Fase aguda do choque (1-2 dias após a situação) » Reação de stress pós-trauma (até 8 semanas depois) » distúrbios provocados pelo trauma  » Alterações da personalidade.

Para um adulto, independentemente da ligação que tenha, é dilacerante encarar uma criança traumatizada, mas há ações que podem de facto ajudar. Aliás, por menor que seja o nosso esforço no sentido de proteger o desenvolvimento infantil, terá o seu efeito. Devemos, portanto, focar-nos em ajudar a criança, tentando ultrapassar o “ferimento” através dos meios que estiverem ao nosso alcance.

Segundo a Pedagogia de Emergência, defendida pelo alemão Bernd Ruf, existem alguns métodos que poderão ser aplicados nos dias e semanas procedentes do episódio traumático. O objetivo desta intervenção de emergência é ativar e agilizar tanto estratégias pedagógicas como o poder de auto-cura da própria criança para ultrapassar o trauma e evitar distúrbios consequentes desse trauma. Naturalmente, deverá ser levada em consideração a idade da criança e fazer-se os devidos ajustes.

Eis algumas estratégias de intervenção propostas pela Pedagogia de Emergência:

permitir que a criança sinta o que tiver a sentir e experiencie as suas emoções. Quanto maior a capacidade da criança de processar as emoções, melhor será a recuperação do trauma. É fundamental que o adulto a ouça, se interesse e a apoie.

verbalizar as experiências e as emoções. É muito importante que a criança consiga exprimir/expelir por palavras o que sente. Suprimir e negar são mecanismos de defesa que podem levar a fobias e compulsões, ou até distúrbios depressivos. Mas não deve ser pressionada. Quando a criança não se consegue exprimir verbalmente, devemos encontrar outras maneiras para a ajudar a fazê-lo, seja a escrever, desenhar, pintar, compor uma música, modelar…

proporcionar ritmo e rotina. Ritmo é vida. E se é algo básico em qualquer situação/ fase,  ainda mais o é para uma criança cuja vida ficou um caos após uma experiência traumática. Trazer ritmo, ordem e segurança é vital – seja no ritual de acordar e deitar, à refeição que inicia ou termina, ter a sesta, etc. Num plano mais abrangente, também tentar devolver o ritmo do dia, da semana, do mês. Para além dos pequenos rituais associados às ações quotidianas, podemos recorrer a cantigas, cantilenas, versos e jogos rítmicos (pois trazem ritmo e repetição);

criar movimento.  A criança que sofreu um trauma fica geralmente tensa, como que presa. Pode ter medo de se mover, de se movimentar. Mas o movimento desenvolve tanto a saúde mental como a física, como sabemos. Devemos, pois, encorajá-la a movimentar-se, a caminhar, a correr, saltar, nadar. É evidente: tendo em consideração o estado físico em que a criança possa estar após uma situação que tenha afetado o corpo físico.

assegurar uma nutrição tão rica quanto possível. A nutrição afeta a saúde, o sistema imunitário e também a condição física. Neste momento deverá dar-se especial atenção para que a alimentação seja o mais rica possível, especialmente em vitaminas.

proporcionar relaxamento. As massagens são, por excelência, uma forma de relaxar. Um óleo (de amêndoas, ou até azeite) com 1 ou 2 gotinhas de óleo essencial de alfazema têm um efeito terapêutico e calmante sobre a pele. Também técnicas de respiração são bastante eficazes para que a criança apazigue as reações fisiológicas sofridas após o trauma.

treinar a concentração e a memória. Após uma experiência traumática, a criança facilmente perde o foco, esquece-se com frequência. Ouvir histórias, fazer trabalhos artísticos, trabalhos manuais, jogos de memória, puzzles, jogos de coordenação e jogos de paciência poderão ajudar bastante a recuperar a concentração e a memória.

brincadeira ativa, sob observação. Através do brincar, as crianças tendem a reproduzir as vivências que têm. Após um trauma, através da brincadeira a criança vai readquirindo aos poucos o sentimento de controlar algo. Pode representá-las com bonecos ou assumir uma «personagem», projetando neles o que sente ou vivenciou. É conveniente, por isso, que nos dediquemos a observar a brincadeira, porque se não tiver limites pode levar ao reviver doloroso do trauma, em vez de o curar. Os próprios brinquedos que lhe sejam disponibilizados deverão ser naturais, simples.

criar atividades que apelem a novas competências. A criança possivelmente apresenta agora uma certa apatia (para além de baixa auto-estima) pelo que é necessário aos poucos confiar-lhe pequenas tarefas exequíveis, tais como manualidades, tarefas de jardinagem… No fundo, tarefas com alguma responsabilidade em que os mais pequenos se sentem capazes de concretizar e, assim, mais importantes.

Para além das estratégias mencionadas, e pensando nas crianças mais pequenas, nomeadamente os bebés, tudo o que possa contribuir para um conforto físico (seja o da pele ou o do meio envolvente), será benéfico para ajudar a ultrapassar o trauma.

Por exemplo:

–  recorrer a um porta-bebés adequado, que os mantém próximos de nós e aconchegados;

– embrulhá-los numa manta leve que os mantenha quentes e seguros (uma swaddle)

–  através de um pequeno  boneco de conforto ou uma fraldinha de pano, que é como que uma referência, algo que o bebé «conhece» pelo cheiro e pelo toque.

– através da utilização de roupas macias, que lhe trazem a sensação de bem-estar.

Proporcionar segurança e proteção, criar laços emocionais confiáveis, desenvolver a auto-estima, reduzir o desgaste emocional e criar uma atmosfera de grupo positiva resulta na ativação das forças de autocura das crianças traumatizadas.

Não menos importante, finalmente, é celebrar as alegrias, mesmo que sejam apenas alguns «golden moments» – e há sempre algum. Valorizar e realçar cada um desses momentos de ouro do dia a dia, aliando-os a uma comunicação empática e a memórias positivas, é trabalhar para o fortalecimento do sistema imunitário da criança e cura a todos os níveis!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.