Saudades do que nunca tive. Valorizar as pequenas coisas

Saudades do que nunca tive. Valorizar as pequenas coisas

Saudades do que nunca tive. Valorizar as pequenas coisas

No outro dia precisei de uma fotografia que sabia ter sido tirada na primeira infância das piolhas. Ao vasculhar no disco externo todas aquelas fotos, é impossível não ser invadida de milhares de memórias e sentimentos tão diferentes como uma saudade, uma melancolia e até uma mágoa… A infância das piolhas não foi como as dos seus pares, por muito que tenhamos tentado que fosse. Não podia ser de outra forma porque as terapias e consultas ocupavam uma grande parte do seu horário semanal. Fora as chamadas horas de brincadeira, camufladas de aprendizagem. Quando olho para trás creio que, apesar de tudo, é a parte que mais me dói. As etapas de desenvolvimento todas desorganizadas, fora dos timings comuns, algumas que nem apareceram.

Sou professora de inglês precoce, o que significa que, algumas vezes por semana, trabalho em instituições como creches e jardins de infância.

Lido com bebés e crianças muito pequenas. E vejo o falar subtil que surge no momento certo, as questões motoras normais para a idade cronológica, o apontar com intenção para o que se quer, a birrinha típica da idade. E as piolhas não tiveram, nada disto. Não é por mal, mas é-me quase impossível não viajar ao nosso passado e aperceber-me que o apontar só surgiu anos depois com anos de terapia. Que a fala usando a terceira pessoa do singular era o comum cá em casa. Que a linguagem infantilizada nunca apareceu (nunca ouvimos um “popó”, “chicha” da boca das piolhas. E quando entraram para o 1º ciclo e tinham de escrever coisas como “É o popó do papá” ficavam doidas porque se dizia “carro” e não “popó” e teimavam “eu vou escrever carro”).

Saber dar valor às pequenas coisas

É claro que não se pode olhar só para trás e ver o que não houve ou o que se perdeu quando o percurso delas, o presente delas é tão cheio de etapas alcançadas e de sucesso. Mas custa um bocadinho terem-nos sido tiradas aquelas pequenas coisas tão preciosas e que a maioria dos pais nem tem a noção do quão preciosas são mesmo. Porque são etapas cruciais no desenvolvimento infantil são aquelas frases que estão numa checklist no pediatra e que ele vai marcando com um certinho porque surgiram na altura certa, na idade cronológica certa e nem precisa de avaliar mais nada. Até o perímetro cefálico deixa de ser medido aos 4 anos e aqui continuámos medidas até aos 10.

Talvez aquilo que eu sinto sejam só saudades do que nunca tive.

Não é uma coisa má, magoa um bocadinho mas já não dói terrivelmente como antes. Mas é algo que faz parte do nosso caminho e que, quando calha em contexto, explicamos aos outros e até às próprias piolhas. Afinal, nesta fase, estão tão dentro do normal, do típico e do habitual quanto possível. Não serão nunca as adolescentes típicas – e isto foi-nos referido várias vezes pelo nosso terapeuta da fala – mas terão os seus laivos, as suas questões, as suas quezílias, os seus momentos de contestação. E, ainda que não seja o ideal, para nós é quanto basta.

Um dia de cada vez, como sempre foi até aqui.

Um T2. Uma família que passa de 2 para 4. Um duplo diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.

O esforço de manter uma vida normal em tempos difíceis, a vários níveis… Em suma, uma aventura vivida a 4.

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