Ser mãe sem ter mãe: O clube a que nunca quis pertencer

Ser mãe sem ter mãe: O clube a que nunca quis pertencer

Perder alguém de quem gostamos muito é uma das maiores tragédias que podemos enfrentar um dia. No meu caso, esta perda representa um vazio que simplesmente nunca voltará a ser preenchido.

Há uns meses atrás vivi a infelicidade de perder a minha mãe. Esta perda fez-me experimentar todo um conjunto de emoções que nem sequer sabia que existiam. Apesar de ter tido a sorte de ter a minha mãe durante 41 anos, eu sinto-me muito nova para viver sem ela.

A verdade é que, sendo também mãe, sinto que me roubaram a possibilidade de partilhar os momentos mágicos que vivo com os meus filhos, com a única pessoa que os viveu comigo. E isto é um cruz difícil de carregar.  E agora tenho de viver num mundo onde o amor eterno e incondicional da minha mãe já não faz parte dele.

Nós tínhamos uma relação especial. Eu sei que a maior parte das pessoas da minha idade não são tão próximas da mãe como eu era, mas agora posso olhar para trás e agradecer por cada momento que passamos juntas.

Muitos do meus amigos já perderam os dois pais. Eu, ainda tenho o meu pai comigo, e é simplesmente maravilhoso, adoro-o mais do que tudo. Mas este amor não compensa nem ameniza as saudades sem fim que tenho da minha mãe.

Nesta minha curta experiencia pela dor de perder uma mãe, e sei que este primeiro ano sem a minha mãe vai transformar-se rapidamente no segundo, quinto, decimo e por aí fora, aprendi que:

  1. Independentemente do tipo de relacionamento, perder a mãe é duro.

    Eu tinha uma relação óptima com a minha mãe mas, na verdade, nem sempre foi perfeita. Como toda a gente passei pela fase do armário (e outras) e, muitas vezes, fui a verdadeira miúda insuportável. À medida que cresci e amadureci percebi a importância de ser menos absorto e foi assim que criamos vínculos e conexões ainda mais fortes.
    Em conversas com amigos apercebi-me que, independentemente da relação que cada um tem com a sua mãe, quer fale com ela todos os dias (como eu) ou fale uma vez por ano, a perda que sentes é dura.

  2. As datas comemorativas são difíceis, especialmente o 1º ano

    As primeiras vezes que passei por datas comemorativas sem a minha mãe foi como se faltasse uma parte importante do meu corpo. Já passei o 1º dia da mãe sem mãe. Eu temi este dia, e a tristeza crescia em mim com o aproximar desta data, que ainda por cima, sendo mãe, não podia passa-lo enfiada na cama a sentir pena de mim própria. Então, meti na cabeça que tinha de estar bem para os meus filhos. Porque isso é o que as mães fazem: colocam os filhos em 1º lugar. Sempre.
    O que eu não esperava que me afectasse tanto foi o primeiro aniversário dos meus filhos sem a minha mãe ao lado. Nós organizávamos tudo em conjunto. A minha mãe estava sempre comigo, e nos aniversários acabamos sempre por recordar o dia em que os miúdos nasceram.

  1. As outras pessoas também têm saudades da minha mãe

    Eu não sou a única a sentir a sua falta. Os meus filhos têm imensas saudades da avó. Apesar de vivermos a alguma distância de caminho eles sempre sentiram que a avó estava a um telefonema de nós. A minha irmã também sente a sua falta. E os seus filhos. O meu pai mais do que tudo. Nem sequer consigo explicar como é que ele se sente. E a lista não pára por aqui: há muitas outras pessoas que conheceram a minha mãe e que sentem e sentirão muito a sua falta. Por amor de Deus, o funeral estava repleto de amigos. É importante que me lembre que eu não sou a única que está de luto.

  1. O sofrimento é diferente de pessoa para pessoa.

    O processo do sofrimento é tão diferente como cada indivíduo que o experimenta. Lembro-me de que no dia do funeral a minha irmã e o meu pai estavam de rastos. Eu mal verti uma lágrima, o que é estranho porque usualmente choro por tudo e por nada. Mas todos nós processamos a dor de forma diferente. Pensei que estava qualquer coisa de errado comigo. Como se eu não tivesse tantas saudades da minha mãe como a minha irmã. E assim aprendi que, com o passar do tempo tudo se tornou mais difícil para mim do que foi aquele dia do funeral em que me despedi da minha mãe. Independentemente da tua reacção, dor é dor, e suga-nos por dentro, mesmo que ninguém o veja por fora.

  2. Às vezes vais esquecer-te que a tua mãe já partiu

    Independentemente de terem passado uns dias ou uns anos, um dia vais inadvertidamente pegar no telemóvel para ligar à tua mãe e lhe contares uma trivialidade qualquer.
    Quando nos estávamos a preparar para o funeral, a minha irmã queria colocar um foto onde aparecíamos os 3 com a minha mãe. Como não encontrava, pensou em perguntar à minha mãe pela foto. Só me contou este episódio mais tarde, e eu contei-lhe que tinha vivido momentos idênticos sem aviso prévio. Quando os meus filhos faziam qualquer coisa parva ou querida pensava logo em contar à minha mãe. Nós costumávamos partilhar estes momentos com alegria e riamo-nos em conjunto. Tenho tantas saudades disso. Muito mais do que eu sonhava. Haverão sempre momentos gatilho que trarão dolorosas memórias. E temos de estar preparados para eles, porque não podemos evitá-los: é importante passar por isso para que consigamos resolver a nossa parte emocional em relação à perda. São os nossos fantasmas que nos irão acompanhar.

  3. Ver adultos a interagir com as suas mães vai-te pôr em lágrimas

    Não te vais aguentar sempre que vires outros adultos a passar tempo com as suas mães. É um misto de ciúmes e gratidão. Ciúmes porque queria ter a minha mãe aqui, e queria estar a passar tempo com ela.
    A Gratidão, primeiro porque me sinto grata e abençoada por tudo o que pude viver com a minha mãe. Em segundo, porque fico feliz pelos meus amigos que ainda têm a sua mãe, porque só eu sei o quanto sinto falta da minha, e graças a Deus que eles ainda não tiveram de passar por isto.

  4. É bom pedir ajuda àqueles que já passaram pelo mesmo

    A última coisa que eu quero é partilhar o meu sofrimento com aqueles que ainda têm as suas mães. Adorei que estivessem comigo e chorassem comigo enquanto eu a acompanhei nos seus últimos dias de vida. Mas a verdade é que nenhum deles, consegue compreender a dimensão da minha dor, porque simplesmente nunca calçaram estes sapatos, e ainda bem.

 

Quando era miúda lembro-me de termos ido um funeral de uma criança. A mãe, sentou-me a mim e à minha irmã e disse-nos que nenhuma mãe deveria perder um filho. Hoje em dia, que era suposto haver uma progressão natural na vida, e embora eu odeie esse termo, sendo mãe, concordo inteiramente com essa afirmação. Eu sei que era isso que a minha mãe queria: que os filhos sobrevivessem a ela. Que mantivéssemos a sua memória viva. E eu sei, que a minha mãe iria ficar orgulhosa de saber que o fazemos todos os dias.

Por Leigh Reagan, para Scary Mommy, traduzido e adaptado por Up To Kids®