todos diferentes

Somos todos diferentes!

Meu amor, tem sido este o mote de maior parte das nossas conversas, de tal modo que quando eu começo a frase “somos todos…” tu acabas por terminá-la por mim, dizendo “diferentes”. Somos todos diferentes!

Estás numa fase em que estás a construir a tua identidade e te apegas ao que te rodeia. às pessoas de quem gostas. Aos colegas (preferidos) da escola. E isso é normal.

Chegas a casa a brincar aos super heróis, resultado da tua interação com os rapazes do teu grupo e a cantar músicas da Elsa e da Ana, consequência da tua ligação  a uma ou duas das tuas referências da escola. Deixo-te ser, dou-te espaço para brincares ao que quiseres, desde que não haja tiros imaginários a serem disparados (e às vezes há) nem “chapadas” (que são, na verdade, espadas :)) a serem brandidas.

É claro que os exemplos não ficam por aqui. Queres fazer o que os outros fazem, porque eles o fazem, queres ter as mesmas experiências, queres sentir que estás a falar de igual para igual quando um assunto vem à baila: “eu também vi, eu também fui, eu também tenho, a minha mãe também diz”, etc. E é aí que eu entro, com a diplomacia possível, para lembrar que não somos, efectivamente, todos iguais, nem temos de ser. Há os colegas que à saída da escola comem gomas (e tu não), há os amigos que levam três brinquedos para a sala da escola (e tu não) e por aí fora.

No Natal a tua prima e tu estavam a comer a sopa e ela disse que não gostava e tu, de imediato, declaraste o mesmo. Claro que quando percebeste que isso significava que a tua prima não ia comer a sopa dela, rectificaste porque querias comer a tua. “Afinal eu gosto”, disseste. E essa é a lição: se vais fazer o mesmo que os outros não sendo fiel a ti, perderás sempre coisas no caminho.

Tens ainda três anos e meio e a procissão vai no adro. Esperam-nos anos de queres os mesmo ténis que X, usar o cabelo como Y, ler o mesmo que W. Terás várias referências ao longo da vida e espero que elas sejam positivas, mas por vezes não serão.

Estarei aqui para te orientar no que me couber fazer e no que não couber a observar e a esperar que depois me digas “lembras-te há uns anos quando eu queria aquelas calças xpto que eram horríveis? E a banda que eu ouvia, como é que era possível???”. Chama-se a isso crescer.

Vais construir a tua individualidade e, para isso, seguirás o teu coração mais vezes que a tua cabeça, dependendo na pessoa que te fores tornando. Terás à tua volta exemplos dos amigos, da família, do que vês na TV, dos autores que lês, das exposições que visitas, dos activistas que te fazem ver o mundo com outros olhos, das bandas que ouves, das escolas que frequentas e amigos que conquistas.

Acabarás por perceber que sermos diferentes uns dos outros é o que nos torna únicos e que se alguém te afastar por seres quem és é porque certamente não merecia a tua companhia. Mas não te esqueças que teres o direito de seres quem és não te autoriza a esquecer como te deves relacionar com os outros e o respeito que lhes deves.

Lembro-me muitas vezes de uma frase que li algures: “In a world where you can be anything, chose to be kind” / “Num mundo onde podes ser o que quiseres, escolhe ser gentil”. Se essa máxima se aplicar à tua vida, então todos os pequenos “eus” que fazem parte de ti já valerão a pena.

Somos todos diferentes e ainda bem. É isso que vai garantir que as diferenças que não são aceitáveis (de tratamento, de pagamento com base no género, de conduta social, etc) serão excluídas aos poucos.

Porque tudo muda.

Tudo, menos o meu amor por ti. Esse nunca será diferente.

imagem@weheartit

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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