Tão crescida a usar chucha, que feia!

A nossa filha já foi alvo deste comentário várias vezes. Geralmente vira a cara, encosta-se a mim e tente ignorar o interlocutor; são claros os seus sinais de desconforto. Para muitos, estes sinais são interpretados como um incentivo para continuar pois estão a ter na criança o efeito desejado.

Acredito que a maior parte das pessoas profere este género de comentários com a melhor das intenções, querem que a criança se livre da chucha e acreditam que ao repreenderem-na estão a ajudar os pais nesta árdua tarefa. Contudo, tal não funciona.

Irei dividir as minhas observações em duas partes: 1) Para os outros; 2) Para os pais.

1) Para os outros

Quantas vezes fumaram um cigarro e alguém vos disse que deviam “largar isso pois faz mal à saúde”?; quantas vezes vos disseram que se deviam afastar daquele/a amigo/a pois é uma má influência nas vossas vidas?; quantas vezes comerem fast food e alguém vos alertou que dessa forma iriam engordar? Em termos concretos, que resultados isso provocou em vocês? Atiraram o cigarro fora e nunca mais fumaram? Enviaram uma mensagem ao/à amigo/a dizendo que pretendiam terminar a amizade? Cuspiram o alimento que estavam a ingerir e desde então detestam-no? Provavelmente não. Nada mudou com os comentários que vos foram feitos ou eventualmente ainda se ligaram mais “ao fruto proibido” exactamente por isso.

Não existe mudança sem motivação e esta última tem de ser intrínseca, isto é, tem de partir do próprio, caso contrário a mudança será temporária. Comentários negativos, que muitas vezes enfatizam a incapacidade de auto-controlo da pessoa e mexem com a sua auto-estima (como quando dizemos a uma criança que é feia por determinado comportamento) podem conduzir à manutenção do comportamento por o outro se sentir incapaz de mudar.

“Devo então incentivar ou ignorar?”, perguntarão alguns. Nem uma, nem outra; podemos encaminhar para a mudança num registo positivo. Quando eu digo: “acredito que vais ser capaz, levarás o teu tempo mas acredito que irás conseguir”, sobretudo quando é dito em frente aos outros, estou a deixar uma semente potente de expectativa que o outro se sentirá tentado a concretizar; mostro que o aceito, que o compreendo, que não o irei pressionar e que confio nas suas capacidades (afago-lhe a auto-estima).

Criticar de forma negativa sem deixar uma linha orientadora ou é improfícuo ou pura maldade.

2) Para os pais

Sejamos sinceros, a maior parte dos comportamentos dos nossos filhos, sobretudo quando são pequenos, resultam de escolhas nossas, ainda que nos arrependamos delas ou que não as reconheçamos a 100%, estamos na origem.

A nossa filha não escolheu usar chucha, na verdade quando nasceu ela até a rejeitava. Acabei por insistir por sentir que isso a iria acalmar e servir de consolo. Hoje, com 2 anos e meio, não a quer largar, se eu permitisse passava o dia todo com ela na boca.

Temos conversado sobre o assunto, sem pressões. Não a comparo com o menino x ou y que não usa chucha pois ela também não me compara com a mãe x ou y Mostro-lhe que vários desenhos de que ela gosta não usam chucha (sem comparar), digo-lhe que não percebo o que ela diz com a chucha posta, explico que a chucha precisa de descansar e por vezes guardamo-la.

Em momentos de crítica em público eu JAMAIS me junto ao outro para a criticar/fazer troça dela. Geralmente coloco-me ao nível dela e respondo que um dia, quando lhe apetecer, irá largar a chucha e evidencio os esforços que já faz: “ela tem usado muito menos, noutro dia até a guardou no quarto durante a manhã toda, fiquei mesmo feliz! Em breve iremos conseguir passar menos tempo com a chucha na boca, vamos com calma”; se tiverem dito que ela é feia, ainda acrescento um “estás tão crescida e LINDA, filha!”.

Não acho que tenhamos sempre de defender os nossos filhos, eles erram tal como nós. Não obstante, acredito que os assuntos se resolvem entre nós e ainda que possa dar razão à pessoa que o repreende, não é saudável juntar-me a ela numa sessão de linchamento público.

Como referi, a nossa filha não queria usar chucha, foi um hábito criado também por mim. Assim, assumo essa responsabilidade, aceito que sou parte activa na sua resolução e defendo a nossa filha de qualquer julgamento exterior feito em tom negativo, mostrando que este não é um problema só dela, é nosso, e como tal iremos resolvê-lo JUNTAS, ao nosso ritmo.

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  1. Helena Gonçalves em

    Boa tarde. Li o texto que é uma opinião bastante válida de uma mãe que está a fazer o que melhor sabe e pode e por isso louvo lhe a coragem de expor se desta forma num tema que tanto se debate por aí. Eu tb concordo com muito do que diz no seu texto mas tb não posso deixar de partilhar a minha experiência enquanto criança que só deixou a chupeta aos 6 anos. Como consequência dos meus pais terem pena de mim e terem deixado a coisa fluir até eu querer fui para a escola sem saber como dizer certos sons… Conclusão como não os sabia dizer tb não os conseguia aprender… Fui para uma terapeuta da fala a quem devo muito. Tive lá um ano e aprendi rapidamente a dizer tudo o que não conseguia. Deixei a chupeta no primeiro dia que fui a consulta quanto esta terapeuta me disse: uma menina tão crescida a usar chupeta? Senti vergonha, mas não levei a mal. No meu íntimo sabia que ela tinha razão é que já era demasiado velha para usar chupeta… Já não me ajudava pelo contrário só me prejudicava. Isto tudo para dizer que as vezes a criança não tem noção de que já não é adequado para a sua idade e de que já não precisa de chupeta. Na minha opinião achar que esta vai deixar por ela própria as vezes não é solução. Todas as crianças são diferentes e não há soluções mágicas para todas. Mas pessoalmente ainda me lembro da minha frustração em pequena por tentar falar e ninguém perceber o que eu dizia… por causa da chupeta. Marcou me. Para além disso fiquei com um ceu da boca mais fechado e tive que levar um aparelho dentário para ir ao sitio… Isto para dizer que por vezes é melhor os pais tomarem uma atitude em relação ao uso da chupeta mais cedo para que mais tarde a criança não sofra com outras questões…