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Tu não mandas na minha vida

Pelo título seria suposto eu ser mãe de uma adolescente. No meu tempo esta era uma frase que eu diria quase todos os dias aos meus pais, “tu não mandas na minha vida” era usado como escudo para dizer que não queria comer, tomar banho, arrumar o quarto ou para a panóplia de deveres que a minha mãe achava que eu tinha de fazer.

Hoje sou eu que, de quando em quando tenho o desgosto de ouvir a famosa frase que me atinge qual seta certeira no ventrículo direito, com uma pequena diferença: sou mãe de uma menina de seis anos!

Há coisas que não deviam ser permitidas na maternidade, e esta é uma delas. Ouvir a nossa filha de seis anos responder-nos desta forma. Fiquei em choque. Primeiro fica a dúvida “será que ouvi bem?” e depois vem a confirmação: “O que é que disseste?” E, sem pudor algum, a resposta ”disse que não mandas na minha vida!”

É assim que, com uma naturalidade inata se atinge o coração de uma mãe, que se parte no chão e corremos para apanhar os cacos e colar com supercola a tempo de dar uma resposta à altura “se eu não mando quem é que afinal manda na tua vida?”

Nesta fase já estamos esperançosas que ela recue, que afinal nós ainda mandamos na vida deles, que aos seis anos são muito novos para mandar no que quer que seja e muito menos para terem a noção que podem mandar em alguma coisa.

“É o meu coração.”

“Então pede ao teu coração para te mandar arrumar o quarto por favor”.

O conflito resolveu-se porque felizmente o coração dela pediu-lhe que arrumasse o quarto, e teve a amabilidade de fazer o coração de uma mãe feliz. A verdade é que o confronto com esta cruel realidade (principalmente para as mães que, como eu, temem o dia em que os nossos filhos abandonam a nossa alçada, mas ao mesmo tempo os educam para a autonomia) faz-nos pensar que questionarem os seus deveres é uma forma de se aperceberem da sua própria liberdade, por outro tememos que se tornem em pequenos delinquentes anárquicos e sem regras, que não compreendam que a liberdade também envolve limites.

Mas espera, eles só tem seis anos … pois está bem… vamos relaxar por mais uns seis anos… a adolescência ainda está longe? Ou será que não?

Compreendo que ao assumirmos o papel de pais educadores teremos sempre esta dúvida eminente na nossa relação parental.  Sabermos até que ponto estamos a fazer bem ou mal, questionarmos se em determinado momento deveríamos ter sido mais ou menos exigentes, esperar que um dia mais tarde quando estes “pirralhos” tiverem realmente idade de mandar na sua própria vida se lembrem que têm sempre mais do que uma opção, e que nem todas são certas.

Porque no fundo só queremos que sejam felizes e nós mães iremos sempre achar que podemos “mandar “ um bocadinho na vida deles, ou não é?

imagem@shutterstock

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