Tudo (ou quase tudo) que as mães de gémeos acabam por aprender

Primeiro o choque, a estupefação. Dois? Não pode ser. Há um engano de certeza!  A seguir… é uma sensação de felicidade que nos invade.

Estar grávida de gémeos é uma experiência única, um privilégio que apenas algumas mulheres podem ter. “Milagre da natureza” para alguns, “bênção de Deus” para outros, o que é certo que se a chegada de um filho à família é um desafio de proporções monumentais, o nascimento de dois filhos ao mesmo tempo compara-se a uma verdadeira competição e requer um treino tão intenso como aquele que necessitamos se nos inscrevermos numa maratona ou numa escalada.

Eventualmente acabaremos especialistas em embalar dois bebés, um no marsúpio e outro na espreguiçadeira, enquanto passamos a ferro, mexemos a sopa na panela e marcamos por telefone as próximas consultas no médico… E se porventura houver mais filhos, como há no meu caso, podemos acrescentar a esta cena mais uma criança ali por perto com quem vamos conversando para saber como foi o dia no infantário, enquanto a ajudamos a abrir o pacote das bolachas e o iogurte.

As mães de um único filho olham para nós e arrepiam-se só de imaginar. “Se só o meu filho já dá este trabalho”… E há pessoas que nos estranham como se fossemos extraterrestres e dirão que ter gémeos é muito bonito… mas é nos outros! Pessoalmente, continuo a achar que é bonito na minha família. Apesar do caos. Mas toda a mãe de gémeos, num abrir e fechar de olhos verá que, com mais ou menos apoio, dará conta do recado e poderemos vê-la por aí… esgotada mas feliz!

Quando finalmente nos adaptamos ao ritmo e a rotina se instala, as mães de gémeos acabam por aprender que:

– Não é grave que das vezes que entrarmos em piloto automático, tipo zombies pela casa, não saibamos afirmar com certeza qual dos gémeos já bebeu o leite ou comeu a papinha… Vai acontecer mais vezes do que as que desejaríamos. A solução passa por preparar um biberão ou uma papa extra e tentar que algum dos dois lhe pegue. Mais problemático é trocar-lhes os nomes e aquela a quem demos o nome de Beatriz passar a chamar-se Carolina e a Carolina passar a chamar-se Beatriz, mas isso, a nós, nunca nos aconteceu… Esperem, pensando bem… Não, nunca aconteceu.

– Ouviremos muitas vezes a pergunta se são “verdadeiros” ou se são “falsos”. Independentemente do caso dos nossos filhos gémeos, convém substituirmos estas expressões por “idênticos” e “fraternos” e sabermos explicar às crianças, à medida que elas vão crescendo, que os chamados “falsos” também são de confiança e que se trata apenas de uma expressão para distinguir os gémeos que não são assim tão parecidos um com o outro… No meu caso, quando respondo a alguém que as minhas filhas gémeas são verdadeiras, noto nas duas um certo ar de superioridade como quem pergunta: “Então? Não estavam à espera que fossemos falsas, pois não?!”

– Quando os gémeos estão na mesma sala na creche, sobretudo se forem tão idênticos que ninguém os distingue um do outro, acontecerá com frequência dizerem-nos ao final do dia, quando os formos buscar: “Esteve tudo bem com os gémeos. Houve um que se queixou da barriga (ou dos dentes, ou da cabeça, ou que não quis comer)… que foi o…o… o… [enquanto aponta, indecisa, com o dedo para um e depois para outro] Agora não sei. Mas está tudo bem”, enquanto nos despeja “o pacote” de gémeos no colo. Pois a verdade é que as mães de gémeos só podem preocupar-se quando não há mesmo outra alternativa. Tudo o que é digno de nota acaba por ficar registado nos boletins de saúde (que convém não perder porque de vez em quando havemos de ficar na dúvida em relação a qual dos dois é que sofria de otites quando era bebé ou qual dos dois teve varicela!).

– Também acontece algumas prendinhas do dia do pai ou da mãe serem uma espécie de dois em um: uma caixinha que é oferta dos gémeos, porque para que quereria lá a mãe lá ter duas caixas que não servem para nada praticamente iguais? Também não é grave: marca-se uma reunião com o/a educador/a para falarmos de cada filho ou então opta-se por pôr cada um na sua sala, para que seja efetivamente tratado como a criança única e especial que é.

– Outro aspeto muito importante, mas que normalmente quando aprendemos “já vai tarde”: toda a mãe acaba por aprender que devia ter escrito o nome dos filhos nas fotografias, sobretudo quando são gémeos idênticos. Cá em casa acontece com alguma frequência situações deste género: -“Vejam esta fotografia da Beatriz quando era bebé. Tão querida a brincar na areia!” -“Sim, mas não é a Beatriz, é a Carolina.” -“Não é nada… Não vês a Carolina lá atrás à beirinha da água?!” -“Lá atrás é que é a Beatriz”… É que os anos passam, as feições das crianças mudam e a informação que julgámos impossível vir um dia a baralhar, baralha-se mesmo!

– Para terminar, quando um diz “mata”, o outro diz “esfola”! Essa dupla que os irmãos gémeos formam desde que se conhecem dentro da barriga da mãe, veio para durar. Para o bem e para o mal. Por isso, dois gémeos juntos são como uma equipa de guionistas a escrever a melhor história de infância de sempre. E a melhor história tem de ter mil e uma aventuras que têm o poder de pôr o cabelo de qualquer mãe em pé!

Mas todas as mães de gémeos acabam por aprender que o melhor a fazer nessas alturas é respirar fundo… contar até três… e relaxar…

A infância só se vive uma vez, mesmo que seja a dobrar!

imagem@huffpost

1 thought on “Tudo (ou quase tudo) que as mães de gémeos acabam por aprender
  1. Eu sou mãe de 2 gemeas lindas de 8 anos e posso dizer com toda a certeza foi a melhor coisa que fiz na minha vida

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