voltar a ser dois

Um dia vamos voltar a ser dois

Um dia vamos voltar a ser dois

O talvez não, porque nunca seremos apenas dois. Não regressamos ao que éramos antes de passarmos a três, quatro e cinco. Quando voltarmos a ser, quase sempre os dois, vamos sempre continuar a ser cinco.

Eu sei que ainda falta muito tempo, ou talvez apenas algum, e já dou comigo a pensar nisso quando nos observo ao longe, penso, afastando o medo, que um dia (e talvez já não falte assim tanto tempo) vamos voltar a ser, quase sempre, apenas os dois.

Vamos ter silêncio de mais e lembrar-nos das vezes em que nos queixámos do barulho.

Vamos voltar a ter a cama só para os dois e saudades de ouvir os pezinhos pequenos, frios e descalços, que sabem de cor o caminho para o meio de nós. Vamos ter mais tempo para ler os tão adiados livros, mas ninguém a pedir-nos para contar uma história na cama. Vamos ter menos migalhas no chão da cozinha, menos iogurtes no frigorífico e menos pratos na mesa. Mais tempo para conversar e outro tanto para namorar. Quem sabe até mais dinheiro e ainda mais vontade de viajar.

Mas enquanto somos cinco e estamos os cinco, eu só peço mais cinco beijinhos de boa noite, mais cinco abraços no pescoço (que é onde as crianças abraçam), mais cinco minutos a contempla-los quando adormecem (haverá melhor sensação que olhar para uma criança a dormir?). Mais cinco dias de férias, mais cinco viagens os cinco, mais cinco pedidos de desejos por realizar, os cinco e a cinco.

Não esquecendo no meio dos cinco, de cuidarmos os dois, e de sabermos viver os cinco sem adiar os planos dos dois, para agora e depois.

E que um dia, quando quase sempre formos dois, que seja nos cinco que encontremos a paz e a vontade de um regresso, nem que seja para um fim-de-semana ou um almoço de domingo, no rebuliço de todas as boas recordações e de todos os alhos e trabalhos que agora reclamamos.

 

imagem@Tom Merton | Getty Images

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.