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Verdade, mentira ou imaginação?

Verdade, mentira ou imaginação?

“A mãe disse que vai comprar um mano para pôr na barriga. Depois eu vou pegar nele e brincar, tomar conta!.”

Como foi que disse? Não, a mãe não proferiu tal coisa. E posso garantir isso porque a mãe sou eu e desta boca jamais sairia tal coisa.

Pois é, mas quem assistiu à conversa não o sabe e olhou-me em pânico: que mãe é esta que diz este tipo de coisas à criança? Pois é, sou mãe de uma criança de dois anos, quase três. Como uma imaginação do tamanho do seu coração, ou seja, enorme.

Lembro-me de a minha mãe contar que passei por uma fase destas, mas um pouco mais crescida. Quando ela me perguntava sobre o meu dia dizia coisas como “foi lá um elefante azul à escola e tocou viola” e coisas do género.

Como se já fizéssemos pouco, ainda temos de saber distinguir a verdade da imaginação e, mais importante ainda, da mentira.

Percebi que se desse por uma ferida nova e perguntasse por ela a Mariana demorava uns segundos a dar-me um culpado. Foi o David. Foi o Matias. Foi a Bia. Era sempre alguém, nunca tinha sido ela que tinha caído, tropeçado, ou algo do género. Outro pai qualquer poderia ter começado a fazer contas à vida e ficado preocupado, afinal todos os dias havia alguém a maltratar a minha filha. E havia: ela própria, com a sua energia inesgotável, com a sua vontade de trepar a tudo, de não parar quieta. Claro que há dias em que alguém a arranhou, mordeu, puxou os cabelos, deu um pontapé. Infelizmente uns dias é ela quem recebe, nos outros dá. Tento corrigir o comportamento, explicar que não se faz, ensinar estratégias para quando lhe batem e para quando tem vontade de bater. Mas o cérebro dela ainda está a desenvolver-se e temos de dar um desconto. Eles acabarão por conseguir lidar uns com os outros e com as frustrações comunicando sem força física.

Depois há aquelas que os ingleses chamam de white lies, as mentirinhas sem grande importância e que detecto em meio segundo, quando lhe pergunto se já fez xixi e me responde que sim, mas com cara de malandra. Sei que daqui para a frente só vai piorar. Vamos passar pela fase do “sim, mãe, já lavei os dentes”, “sim, mãe, estive a tarde toda a estudar”, “sim, mãe, desculpa, tinha o telemóvel sem som quando ligaste”, “sim, mãe, almocei na escola e aquele peixe no forno com batatas assadas estava delicioso”, “sim, mãe, sabes que eu não fumo, o cheiro na minha roupa é delas, que estão sempre a fumar, mas eu odeio”.

Ainda só estou preparada para metade delas, mas tenho tempo quando lá chegar.

Preocupa-me, isso sim, quando não conseguimos distinguir a mentira da imaginação e a tomamos como uma verdade. Devemos confiar nos nossos filhos, mas temos acima de tudo de os conhecer. De reconhecer as suas fragilidades, os seus defeitos, o seu modo de lidar com as coisas.

De os ouvir.

De perguntar até percebermos realmente tudo.

De lhes mostrar que nos podem contar sempre a verdade, por menos boa que ela seja.

Esperar que não se habituem à mentira fácil.

Desejar o melhor.

Sempre.

imagem@weheartit

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Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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