nossos mortos

Não falamos muito dos nossos mortos

Não falamos muito dos nossos mortos

Não falamos muito deles, pois não? Dos nossos mortos.

Às vezes, durante o banho, vem uma sensação de que não morreu.

Outras vezes, à noite, choramos sozinhos com saudade. Outras ainda, sonhamos um sonho real em que estão vivos. Tinha sido engano. Depois, quando acordamos, a verdade chega outra vez.
Um dia, pareceu-me que esperava que telefonasse. Que, simplesmente aparecesse. Não falamos muito deles. E dói.
Este dia repete-se.
Mas não queremos chatear. Desejávamos saber mais. Lembrar mais.
Este não querer chatear os outros, não querer partilhar, deixa os nossos mortos só para nós.
Ninguém imagina a falta.
Às vezes, tento pensar nas últimas palavras que trocámos. Às vezes, em vão…
E aí, resolvemos abraçar os que estão. Dizer o que falta. Que fazem falta.
E às vezes não falamos muito com eles, pois não?
Quando morrer não gostava que dissessem que parti. Não usem eufemismos. Digam morreu. Digam, lá está ele com aquelas coisas. Mesmo assim deitado, lá está ele.
E falem de mim.
Não me guardem.
Abracem quem amam.
Não me culpem. Já não vai valer a pena. Não usem frases feitas e aborrecidas*. Comam.
Não te culpes, claro. Como às vezes fazemos com os nossos mortos.
Sei que sofres mais do que eu. É assim mesmo. Há sempre alguém que sofre mais.
Mas isso não ilegítima a nossa dor.
Às vezes, no sonho, não queremos acordar.
Só às vezes.
*Amanhã é outro dia.

image@AdrianMurrey

 

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“Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. ”  Miguel Esteves Cardoso

 

Gosto de iniciativas “sem tretas” e com alma. Como a Up to Kids, por exemplo.

A criação do Mundo Brilhante permite-me visitar escolas de todo o país e provocar os diferentes públicos para poderem melhorar. Agitamos. Queremos deixar marcas.

6 thoughts on “Não falamos muito dos nossos mortos
  1. Cristina Ribeiro diz:

    É incrivelmente assim! Antes de falarmos de Eutanasia muito antes temos que desenvolver esta linguagem sobre a morte e o morrer.

  2. Teresa Tomé Ribeiro diz:

    É incrivelmente assim! Antes de falarmos de Eutanasia muito antes temos que desenvolver esta linguagem sobre a morte e o morrer.

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