Quanto pode amar uma mãe?

Meu amor,

Quando a tia nasceu eu tinha Treze anos. Amei-a como se fosse minha filha, apesar de ser minha irmã. Mesmo com aquela idade, mesmo sem o verbalizar ou saber ao certo o que estava a sentir, achei que não ia voltar a amar ninguém daquela forma. E não voltei. Passava os fins-de-semana em casa do avô e era tão bom poder cuidar dela, estar ali de volta daquele bebé que olhava para mim com olhos grandes e um sorriso doce. Mas que também ficava impaciente, pedia muita atenção e queria brincar com coisas que não podia. Ao domingo à noite despedia-se sempre de mim a chorar, a pedir para eu não me ir embora, mas eu tinha de ir. E sentia, do alto dos meus quinze anos, que ter um filho devia ser uma responsabilidade brutal, porque uma criança precisa de disponibilidade, de ser cuidada vinte e quatro sobre vinte e quatro horas.

Tantos anos mais tarde nasceu a prima e mais uma vez uma onda de amor. Mais uma vez um amor diferente. Mais conhecimentos e alguma sabedoria, a mesma vontade de não perder pitada daquele bebé calminho mas o mais esperto que alguma vez conheci. Curiosa e carinhosa, como é ainda hoje com quase três anos.

Fui colecionando grandes amores até te amar a ti.

E percebo as pessoas que têm medo de ter um segundo filho por recearem não o amar como amam o primeiro. Porque é um amor avassalador, algo com que não vivemos durante décadas e que, de repente, dá um sentido verdadeiro à nossa vida.

Percebo-as mas sei, cá dentro, que nenhum destes amores se repete. Que todos têm o seu lugar, que o coração é um órgão elástico que vai esticando mais um bocadinho sempre que nos predispomos a abri-lo.

Há poucas verdades absolutas, mas estas são as minhas. De mim, para ti.

O amor que sinto por ti é irrepetível.

Não há nada que o possa diminuir. Nem mesmo se às vezes me desiludires e fizeres menos por ti do que eu gostaria.

Mesmo que não houvesse luz nenhuma no mundo, conseguiria chegar até ti, só pelo teu cheirinho.

Às vezes, quando estou cansada, basta-me o teu sorriso para ter novamente energia.

Falo muito contigo (e às vezes receio que a tua primeira frase completa seja “cala-te só um bocadinho, mãe, pode ser?”. Mas sei que és demasiado doce para sequer o pensares…).

Quando regrides em qualquer coisa (adormecias sempre tão bem, agora tem custado mais), penso sempre em que é que estou a falhar e tento lembrar-me sempre que o mais importante é respeitar o teu ritmo, o teu crescimento – porque te estás a aperceber de um mundo cada vez maior à tua volta e tens o direito de mudar, de te adaptar à tua maneira, no teu tempo.

Muitas vezes, de manhã, deixo-te demorar mais tempo a fazer as coisas porque sei que te (nos) esperam manhãs com muito stress lá mais para a frente. És um bebé agora e não vais poder brincar com calma, gatinhar atrás de mim com a língua de fora, morder o teu elefante por muito mais tempo.

Tudo o que faço por ti vem cá de dentro, daquele cantinho do meu coração que conquistaste e que será teu até eu deixar de andar por cá.

Espero que um dia sintas este amor tão grande, tão puro. E que gostes de mim, desta miúda que ainda se está a habituar ao título de “mãe” e que tem um orgulho tão grande de ser a tua.

Já reparaste como falo tanto e tantas vezes de amor?
É para que saibas a que ninho pertences, minha querida.

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

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