Quem meus filhos beija minha boca adoça

Ouvi este ditado da boca da minha mãe mais vezes dos que as que consigo enumerar.

Depois de ter tido a minha filha passei a compreendê-lo na perfeição. Como podemos não gostar de quem gosta dos nossos? Como podemos não ficar de coração cheio quando os tratam (quase J) tão bem quanto nós?

A creche da minha filha é a sua segunda casa. Foi escolhida com mil cuidados, com todo o coração, ainda não sabíamos o sexo do bebé que eu esperava.

Foi lá que a deixei com quatro meses e meio, nesse dia em que cheguei a casa e encontrei o meu bebé a dormir, cansado do dia agitado que tinha tido, e chorei. Foi a única vez que o fiz. De todas as vezes que a fui buscar à creche o meu coração encheu-se de ternura.

Na creche da minha filha todos se conhecem. De conhecer a sério, de saber os hábitos, os gostos, as manhas, as brincadeiras preferidas.

Na creche da minha filha todos se conhecem pelo nome. Mesmo os meninos mais crescidos sabem como se chamam os bebés.

Na creche da minha filha há uma horta, um jardim com árvores para trepar, relva e flores que ela adora cheirar.

Há educadoras com um colo enorme, auxiliares que dão a mão a todos, mesmo quando todos são muitos e todos querem ir de mãos dadas.

Há sempre música no ar, seja vinda da aparelhagem, seja das vozes de quem toma conta dos meninos.

Há choro, mas muitas mais gargalhadas.

Há, todos os dias, a conquista de algo (os primeiros passos, segurar os talheres e comer sozinho, pedir para ir ao bacio, lembrar-se de limpar a boca depois de comer).

Há o respeito pelo ritmo de todos.

Há paciência e amor para as pequenas falhas, entusiasmo e incentivo para que a palavra “desistir” não reine.

Há meninas que apanham flores e nos entregam, sem perceber como esse gesto é bonito.

Há rapazes que correm, tropeçam e disputam brinquedos mas ajudam os amigos a levantar-se quando estes caem.

Há sempre alguém ao pé destes meninos e meninas a ajudá-los a serem melhores.

Alguém que lhes conta uma história nova todos os dias.

Que brinca com eles sem olhar para o relógio ou revirar os olhos.

Que canta sem enfado.

Alguém que, mesmo que esteja a ter um mau dia, nunca o deixa transparecer.

Alguém que tem, mais do que um trabalho, uma vocação – e esta é uma das vocações mais importantes no mundo, porque só se é criança uma vez.

Estarei a descrever todas as creches do mundo? Se sim seria uma sorte. Porque considero uma sorte a minha filha estar numa creche que é uma casa, com uma “família” que cuida dela, que se preocupa, que se interessa.

As crianças são transparentes. Quando não gostam encontram maneira de o deixar bem claro. E quando gostam é impossível segurá-las. E é de coração cheio que vejo a minha filha a pedir colo às educadoras que passam pela sala para a espreitar, às auxiliares que tomaram conta dela quando ainda não tinha um único dente. É e está feliz.

Hoje entendo-te perfeitamente, mãe.

Quem a minha filha beija (todos os dias), a minha boca adoça (tranquilizando o meu coração).

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
Todos os direitos reservados.

 

Imagem@weheartit

MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

Gostou deste artigo? Deixe a sua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.