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Esta coisa estranha da Dislexia

A avaliação psicológica, de um modo geral, é um processo de investigação sobre o funcionamento mental do sujeito. O funcionamento mental funciona como uma variável continua em constante mutação. Neste sentido, a avaliação psicológica transforma a continuidade da mente numa variável discreta, constituindo-se assim, enquanto corte no funcionamento mental do sujeito.

Existe uma certa analogia que se pode tecer entre a avaliação psicológica e as análises médicas em geral. Ambas servem o propósito de investigar, ambas produzem resultados diferentes consoante a condição actual do sujeito e ambas funcionam de acordo com critérios estatísticos.

A aplicação do mesmo teste a uma amostra alargada de uma dada população permite-nos construir um nível de ‘normalidade’; como consequência podemos também afirmar se o sujeito se encontra abaixo, muito abaixo, acima, ou muito acima do expectável para a sua faixa etária.

A avaliação da dislexia, por exemplo, funciona de acordo com os pressupostos da avaliação psicológica no geral, tendo por objectivo a investigação. E para que seja possível estabelecer este diagnóstico é necessário que se entenda o que devemos procurar.

Falemos agora um pouco deste bicho chamado “dislexia”.

A palavra dislexia deriva do grego Δυσλεξία, referindo-se a dificuldades ou a um distúrbio do processo de leitura. Neste sentido, a avaliação da dislexia deve encontrar evidência de um défice significativo na fluência e na precisão de leitura. É essencial que se obtenha por isso um nível de leitura, ou seja, devemos verificar onde se posiciona o nível da criança/adolescente/adulto, em relação a outros indivíduos da mesma faixa etária, e por tanto, nesse sentido, os testes aplicados devem ser padronizados. Encontrado o défice de leitura é necessário que se entenda o motivo do distúrbio.

Existem múltiplos factores que intervêm no processo de leitura, sendo essencial que se identifiquem quais os factores que se encontram comprometidos no sujeito, no sentido de propor uma intervenção que seja adequada.

Uma possibilidade é que o défice de leitura se deva a uma dificuldade de organização perceptiva ou de lateralização. Neste contexto o que promove a dificuldade leitura será uma distúrbio na capacidade de organizar perceptivamente o estímulo gráfico (grafema). Aqui são relativamente frequentes trocas ou substituições de letras com base na semelhança gráfica (e.g. d/p, q/d) e não na semelhança de som. Estaríamos na presença de uma Dislexia Diseidética. Uma vez que esta é uma possível explicação para o défice de leitura é necessário que sejam aplicados testes padronizados que avaliem as capacidades de organização perceptiva, coordenação mão-olho e lateralidade.

Outra possibilidade é que a dificuldade de leitura seja explicada por intervenção de um défice cognitivo. É preciso que se entenda se o défice de leitura é produto de uma dificuldade de atenção (em termos de qualidade ou de manutenção), especificamente de atenção visual, ou de memória, ou de outro qualquer tipo de função cognitiva.Se for encontrada evidência de debilidade cognitiva, regra geral, não se considera o défice de leitura como sendo produto de uma dislexia.

Este último ponto, no entanto, é controverso. Em parte porque por vezes existe um quadro de co-morbilidade entre debilidade cognitiva e dislexia, e por outro lado porque os critérios de diagnóstico da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) e DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico), são pouco específicos quanto à origem do défice de leitura; pelo que, no contexto deste manuais, apenas interessa o problema manifesto, isto é, o défice de leitura propriamente dito.

Não obstante, a avaliação das capacidades cognitivas do sujeito dislexico é sempre fundamental. Não só porque permite investigar a origem das dificuldades de leitura, mas também porque esperamos que exista um perfil cognitivo típico da dislexia (QI’s normais ou superiores à média, QI verbal inferior ao QI não-verbal, capacidades espaciais > conceptualização verbal > processamento sequencial).

De um modo geral, consideramos a dislexia como produto de uma dificuldade de consciência fonológica (dislexia disfonética). Assim, mais uma vez será necessário que sejam avaliadas as capacidades de consciência fonológica, recorrendo a testes padronizados.A aplicação de uma bateria de testes que tem por objectivo o diagnóstico e o tipo de intervenção mais adequado é fundamental para que o potencial de aprendizagem seja reposto.

Por Dr. Fábio Mateus

imagem@veja.abril

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