Grávidas com fome

Parece que este ano é ano de nascimentos. Dizem as notícias que os jovens cansaram-se de esperar e que as próximas cegonhas já estão lotadíssimas de bebés gorditos. Por todo o lado vejo barrigas, na fila do multibanco, nos restaurantes, nas livrarias, cabeleireiros e foi mesmo aí que ouvi uma barrigona partilhar as suas mágoas porque há 9 meses que não come enlatados com medo de uma intoxicação alimentar (botulismo).

As minhas sirenes internas dispararam e a minha atenção (e compaixão) virou-se toda para esta pobre criatura que está a salivar por dois pares de sardinhas encostadas e amputadas a nadar em azeite e uns chispes apertadinhos com feijões numa lata. Apesar da minha veia de nutricionista (reles) os condenar, a minha recente experiência com uma barriga cheia como a lua e umas hormonas em festa constante, estendi-lhe o meu melhor sorriso misericordioso.

Lembro-me que, desde que a minha barriguinha virou barrigona, fui sendo aconselhada a abolir da minha alimentação uma série de alimentos sob os mais diversos pretextos, capazes de deixar em pé os cabelos de qualquer recém-mamã.

Um certo dia, vesti a minha faceta de grávida aventureira e depois de meia dúzia de voltas nas lojas de um centro comercial, resolvi parar para almoçar. Grávida de sete meses e a tentar manter a escalada do peso em níveis aceitáveis, coloquei-me na fila de uma loja que vendia sopa e salada. Quando chegou a minha vez, a amável colaboradora adiantou-se e proibiu-me de comer a salada porque tinha alface e uma grávida, ao que parece, não come alface. Optei pela sopa e fui novamente desaconselhada porque tinha couve e pelo que consta, uma grávida também não come couve. Também não pude comer feijão nem o caldo verde com o chouriço… No embalo e antes que eu me lembrasse de sugerir, disse-me que a coca-cola descola placentas……. SOCORRO!!!!!! Uma pessoa quer comer o mundo mas tem dias que é difícil!

Não quero com isto desvalorizar os cuidados alimentares que uma gestante deve ter, até porque se justificam e na grande maioria das vezes o risco não compensa. O botulismo, a listeriose e a toxoplasmose são infeções sérias transmitidas por alimentos contaminados a pessoas, sejam elas grávidas ou não grávidas. A questão é que numa pessoa saudável seriam fáceis de resolver mas que numa gestante é um pouco mais complicado. Por isso, tão importante quanto saber o que não deve comer, é porque não deve comer. Comer em casa ou fora, o importante é garantir que a higiene não foi descuidada em nenhum ponto. Aproveito para relembrar alguns tópicos que me parecem mais importantes e básicos, tome nota:

  • Hortofrutículas devem muito bem lavados e desinfetados, ou retirada a casca;
  • Carne principalmente aves, devem ser muito bem cozinhadas e sem qualquer vestígio de sangue,
  • Ovos muito bem cozidos ou utilize os UHT assim como nada de sobremesas cruas (adeus ovos moles);
  • Evitar (não é abolir) peixes grandes e que se encontrem nos níveis superiores da cadeia alimentar porque acumulam muito metilmercurio;
  • Álcool: zero, niente, nicles, nada!

Não se deixe ir na conversa popular ou na experiência baseada na tese “a amiga de uma amiga minha”. Pergunte porquê, investigue o assunto e tenha olhar crítico e científico. Se achar que o risco não pode ser reduzido, não coma. Se achar que o risco é o mesmo para si e para uma pessoa “sem barrigona” e que tem confiança na preparação higiénica, então avance e mande as hormonas hibernar.

Por Carolina Fernandes, para Up To Kids®
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