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Hiperatividade? Medicar? E depois?

Circula pela internet e redes sociais um texto sobre a Ritalina® que, para além de não fundamentado e de autoria indefinida, coloca bastantes preocupações e questões sobre o diagnóstico, decisão de medicação e intervenção no caso de crianças com suspeita de Perturbação de Hiperactividade com Déficit de Atenção.
Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde, os transtornos hipercinéticos caracterizam-se por “falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo, e uma tendência a passar de uma atividade a outra sem acabar nenhuma, associadas a uma actividade global desorganizada, descoordenada e excessiva.”

As crianças hipercinéticas são frequentemente imprudentes e impulsivas, sujeitas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares mais por infrações não premeditadas de regras do que por desafio deliberado. Suas relações com os adultos são frequentemente marcadas por uma ausência de inibição social, com falta de cautela e reserva normais. São impopulares com as outras crianças e podem se tornar isoladas socialmente.
Independentemente de ser ou não uma síndrome “inventada” por Leon Eisenberg ou de existir sobre-diagnóstico, a verdade é que há muitas crianças e famílias que sofrem com as consequências directas e indirectas desta perturbação e esse sofrimento é bem real.

Estas crianças têm uma actividade que vai para além da irrequietude normal da sua idade podendo chegar ao cúmulo de não conseguirem sequer fixar o olhar durante alguns segundos. Não conseguem controlar os impulsos, quer originados internamente (por emoções fortes como raiva, fúria, injustiça, etc.) quer originados externamente (orientando a sua atenção para qualquer pequeno estímulo distractor).

Podem ainda ter bastante dificuldade em entender os comportamentos e atitudes dos outros, facto que vai dificultar em muito a interacção social, a criação de novas relações sociais, a manutenção de relações antigas e o cumprir dos padrões comportamentais socialmente aceites.
O seu comportamento desadequado, a dificuldade em criar relações com os outros, a impulsividade, as explosões emocionais, etc. fazem com que a convivência diária com a criança seja muito exigente e, muitas vezes, toda a comunidade escolar ou a família alargada pode ficar afectada por uma única criança.

Indirectamente surgem outros problemas já que estas crianças podem facilmente começar a ser vistas com desconfiança por colegas, professores, funcionários e até membros da famíla alargada e começam a ser “bode expiatório” de todo o mal que acontece nestes contextos. Em consequência, não raras vezes começam a ser excluídas das actividades que exigem socialização (passeios, visitas, actividades de enriquecimento curricular, cerimónias familiares, às vezes até a sala de aula), simplesmente porque é difícil lidar com elas, com repercussões claras sobre a sua auto-estima e auto-conceito.
É normalmente nesta altura que pais e professores se colocam a questão:

Medicar ou não?
O tratamento farmacológico da hiperactividade faz-se com metilfenidato. O metilfenidato (comercializado em Portugal com os nomes Ritalina LA®, Concerta® e Rubifen®) é um estimulador do sistema nervoso central. Foi sintetizado em 1944, comercializado em 1955 e a partir de 1960 o seu uso em crianças com hiperactividade generalizou-se. A sua actuação faz aumentar a quantidade de dopamina e noradrenalina nos canais de comunicação entre os neurónios (sinapses) recrutados para desempenhar as tarefas, ajudando na concentração da atenção sobre estas.
Como todos os medicamentos, também o metilfenidato tem vários efeitos secundários descritos nomeadamente ao nível cardio e cerebrovascular, entre outros . Embora seja considerado bastante seguro pelo Infarmed para o tratamento de crianças e adolescentes acima dos 6 anos, o ideal seria que não fosse necessário medicar nenhuma criança.
O desenvolvimento saudável de qualquer criança faz-se em relação com os outros, adultos e crianças, que lhe mostram o mundo agindo em conjunto sobre este. Se o seu comportamento já chegou ao ponto de esta ser excluída das actividades da escola ou de outras, ao ponto de passar mais tempo isolada de colegas e amigos, isto só vai fazer com que aumentem os seus sentimentos de revolta e injustiça, diminuir a sua auto-estima dificultando ainda mais a sua relação com os outros e potenciando as situações de descontrolo emocional.

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A medicação pode ser a única forma de se conseguir a reintegração destas crianças na sala de aula, nas actividades da escola e da família, dando uma segunda oportunidade a ela própria e a todos os que a rodeiam. Pode ser a única forma de quebrar o ciclo vicioso criado, minimizando ou anulando os efeitos indirectos do seu comportamento.
Se o comportamento da criança ainda não afectar tão negativamente as actividades diárias, a relação saudável com as outras pessoas e a forma como a criança se vê a si própria, será preferível não medicar.
Com a medicação, a criança fica mais calma, com maior capacidade de concentração, com mais possibilidades de ouvir os outros, de entrar nas conversas e jogos mas, ainda assim, mantém as suas dificuldades na interação social e, na ausência de medicação, o seu comportamento volta ao mesmo. Não fazer mais nada para além de medicar seria deixar ao acaso o desenvolvimento saudável destas crianças.

A medicação vai atenuar os sintomas mas nada faz em relação ao que os provoca. A estruturação cerebral que permitirá à criança aprender a controlar os seus impulsos, a focar a sua atenção (inibindo os estímulos distractores), a promover as suas competências sociais e a conseguir identificar e gerir as suas emoções (nomeadamente a tolerância à frustração) só será possível de forma eficiente através do acompanhamento em consulta de psicologia clínica, com psicoterapia e habilitação neuropsicológica.
É altamente recomendável que, com ou sem medicação, estas crianças possam ser acompanhadas em psicologia clínica para que possam desenvolver-se no sentido de um maior auto-conhecimento, maior reconhecimento e controlo das emoções, melhor inibição de comportamentos indesejados e na promoção de recursos para lidar com o stress.

imagem@Wolfgang Flamisch/Corbis

3 thoughts on “Hiperatividade? Medicar? E depois?
  1. Bom dia.
    Sou pai. Apenas isso. Apaixonado pela matemática sou engenheiro e gosto do raciocínio lógico. Sem jeito para escrever conto em poucas palavras que justificam o meu pavor à Ritalina, ou concretamente ao Rubifen. Porque não entendo nada de medicina e porque no meu tempo a irrequietude era tratada pelo chinelo da mãe ou pelas palmatoadas dos professores, penso na minha leiga opinião o seguinte:
    Tive há 14 ou 15 anos atrás o meu filho diagnosticado como hiperactivo, e concordo com os sintomas supra descritos, como plausíveis para esse diagnostico. Foi tratado com Rubifen que reliogiosamente comprava em Espanha pois não era comercializado em Portugal.
    Após o desmame aconselhado pelo clinico assistente, aos 13 anos, depois de 6 de “tratamento”, o meu filho começou a ter um comportamento estranho, apresentando ausencias de e fenómenos de mastigação.
    Depois de um conjunto exaustivo de exames foi-lhe então diagnosticada por exclusão de outras patologias, epilepsia benigna.
    Iniciou um tratamento com um fármaco Zigabal, que o prostrava como um zombie, sem que todavia os fenómenos de mastigação se atenuassem. Suspendemos essa medicação e ficou algum tempo sem tomar qualquer fármaco.
    Entretanto o seu rendimento escolar baixou drasticamente.
    A sua postura social pautou-se pelo isolamento.
    Não tem amigos e só se relacionava com velhos.
    Até que subitamente começou a ter convulsões, a primeira, tinha ele 16 anos de idade.
    Foi no hospital de Matosinhos lhe diagnosticada, decorrente dessa convulsão, pela primeira vez, epilepsia do lobo frontal.
    Receitado com o Topiramato Tomix, a postura de zombie foi exponencialmente acrescida.
    Exames, tacs, ressonancia, EEG, tudo foi feito sem que contudo um diagnostico claro e inequivoco lhe fosse feito.
    As convulsões foram-se repetindo, cada vez mais graves e frequentes, entremeadas, com os fenomenos de mastigação.
    Recorri então a um médico de Pontevedra neurologista, psiquiatra, a conselho de um amigo, porque o seguimento que obtive do hospital de Matosinhos era péssimo, não dando qualquer solução com consultas semestrais e fármacos que sempre de uma forma, diria, experimental, não produziam qualquer efeito.
    Quando disse, ao clinico espanhol, do tratamento com o Rubifen, em criança, este, fez uma cara muito feia.
    O médico após exames no seu consultório, e de posse dos dados que possuímos dos testes e exames anteriores feitos em Portugal, “confirma” (?) a epilepsia do lobo frontal.
    Medicou-o, com Depakine, Bialminal e Nootropil.
    Desde então até agora, com 21 anos de idade, não pára de ter convulsões, mas agora só e quando por distracção se esquece de tomar a medicação atempadamente.
    Todavia fica aqui uma dúvida que na minha ignorancia coloco.
    O meu filho era hiperactivo ou não? Até que ponto essa hiperactividade não seria já uma primeira revelação da sua epilepsia? Terá o Rubifen provocado secundariamente a epilepsia?
    Hoje o meu filho é um inapto. Não gosta de nada, nada o apixona nem capta a sua atenção a não ser uns quantos jogos “on line” na internet.
    Não conclui o 12 ano escolar apesar de ter sido um excelente aluno em criança.
    Onde é que eu falhei? Onde é que a medicina me traiu?
    A quem ler isto, sugiro. Para mim, como leigo, a eleger um motivo da minha (e dele) desgraça actual, elegeria a Ritalina.
    Tenham cuidado, para que a minha historia não se repita em mais lar nenhum do meu pais.
    Obrigado e desculpem.

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